Dissidente reclama de universidade

Chen Guangcheng diz que NYU tenta silenciá-lo

ANDREW JACOBS, THE NEW YORK TIMES, PEQUIM, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2013 | 02h03

Chen Guangcheng, o advogado dissidente cuja fuga da prisão domiciliar para a embaixada dos EUA em Pequim, no ano passado, provocou uma crise diplomática, disse que está sendo obrigado a abandonar a Universidade de Nova York (NYU, na sigla em inglês) em função de temores de que seu ativismo esteja prejudicando as relações do centro de ensino com a China.

Numa declaração divulgada no domingo, Chen disse que dirigentes da universidade temiam que suas críticas francas ao governo chinês poderiam colocar em risco a cooperação acadêmica. A NYU abriu recentemente um câmpus em Xangai, e alguns professores estão envolvidos em programas e projetos de pesquisa que poderão ser prejudicados se eles não receberem vistos chineses.

"O trabalho dos comunistas chineses em círculos acadêmicos nos Estados Unidos é bem maior do que as pessoas imaginam, e alguns pesquisadores não têm outra opção senão se retrair", disse Chen. "A independência acadêmica e a liberdade acadêmica nos Estados Unidos estão sendo extremamente ameaçadas por um regime totalitário." A alegação de que Chen estava sendo pressionado para sair da NYU foi levantada na quinta-feira pelo jornal The New York Post, mas até domingo, ele havia permanecido em silêncio.

A universidade emitiu uma declaração sua no domingo refutando as alegações de Chen. "Ficamos muito desanimados ao tomar conhecimento da declaração do sr. Chen. Contém algumas especulações sobre o papel do governo chinês na tomada de decisão da NYU que são falsas e contraditas pelos fatos bem estabelecidos", disse, na declaração, o porta-voz da universidade, John Beckman. Ele afirmou que a instituição ficou "perplexa e entristecida" pelas acusações de Chen, mas que continuará a ajudá-lo e a sua família.

A universidade insiste que a bolsa da faculdade de direito para Chen sempre foi prevista para um ano, e os que trabalharam em estreita colaboração com ele nos últimos meses disseram que ele compreendia as limitações de tempo de um acordo financeiro. O fim da bolsa, disse Beckman, "não teve nada a ver com o governo chinês - todas as bolsas terminam".

Chen disse que a faculdade havia dado um prazo até o fim de junho para desocupar o apartamento funcional em Greenwich Village onde ele e a família estão morando desde a sua chegada aos EUA, em maio de 2012.

Advogado autodidata e cego, Chen, de 41 anos, era bastante conhecido na China por sua luta contra as políticas coercitivas de planejamento familiar do país. Após chegar nos EUA, ele se tornou uma espécie de sensação da mídia, dando entrevistas e fazendo depoimentos no Congresso.

Essa pressão, disse ele, começou a se revelar menos de quatro meses depois de sua fuga para a embaixada. A declaração de Chen não incluiu detalhes sobre como ele poderia ter sido pressionado pela NYU, e ele se recusou um pedido de entrevista. Mas amigos disseram que ele já vinha cozinhando em silêncio nos últimos meses sobre o que acreditava que fossem esforços da universidade para manipular seu ativismo. Em agosto, ele disse a amigos que a NYU estava tentando dissuadi-lo de viajar a Washington para se encontrar com membros do Congresso. Quando ele retornava a Nova York, naquele dia, dois intérpretes da NYU que o estavam acompanhando se recusaram a permitir que um repórter o entrevistasse.

Nos últimos dias, porém, colegas de Chen questionaram a alegação de que a NYU o estava obrigando a sair. Jerome Cohen, professor de direito que ajudou a arranjar sua bolsa, disse que a escola foi extremamente generosa.

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