Dissidentes chineses são céticos com novos líderes

Para eles, o controle e a censura devem permanecer, pois muitos dos escolhidos chefiavam províncias que reprimiram críticos ao regime

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2012 | 02h04

Dissidentes chineses são céticos em relação à possibilidade de flexibilização política sob o comando dos líderes que assumiram o comando do Partido Comunista na quinta-feira, na maior troca de guarda da organização em uma década. A expectativa é a de que os mecanismos de controle e censura sejam mantidos, com reiterada ênfase na estabilidade social.

O ativista Hu Jia lembra que a maioria dos sete integrantes do novo Comitê Permanente do Politburo ocupava posições de comando em diferentes províncias do país, nas quais aprovaram medidas de repressão a movimentos sociais e a críticos do regime.

Em 2002, Hu Jia foi preso quando visitava doentes com o vírus HIV na Província de Henan, onde ocorreram milhares de casos de contaminação de camponeses por bancos de sangue que não usavam agulhas descartáveis. O chefe da região, na época, que ajudou a abafar o escândalo, era Li Keqiang, o novo número 2 do partido, que em março se tornará o primeiro-ministro da China.

Antes de ser promovido ao órgão de cúpula do partido, Li Yunshan era o chefe do Departamento de Propaganda, responsável pela censura à imprensa e à internet, observou Hu Jia.

O ativista cumpriu pena de 3 anos e 6 meses de prisão sob acusação de subversão e foi libertado em junho de 2011. "Eu não tenho nenhuma expectativa em relação ao partido e aos novos líderes", disse Hu Jia ao Estado.

O dissidente Jiang Qisheng também é cético quanto à possibilidade de liberalização política na China. "O controle e a repressão são seu estilo de trabalho (do partido) e a manutenção da estabilidade será sempre a prioridade", declarou.

Jiang foi preso em maio de 1999 e condenado a 4 anos de prisão depois de escrever e distribuir uma carta em homenagem aos mortos nos protestos pró-democracia da Praça Tiananmen, em 1989.

O novo dirigente máximo do Partido Comunista da China é Xi Jinping, que assumiu o cargo na quinta-feira ao lado dos outros seis integrantes do Comitê Permanente do Politburo: Li Keqiang, Zhang Dejiang, Yu Zhengsheng, Li Yunshan, Wang Qishan e Zhang Gaoli.

Segundo Jiang, o tom da nova administração foi dado pelo discurso de despedida de Hu Jintao, que alertou seus colegas de partido: "Nós não podemos tomar a velha estrada do isolamento e da estagnação, mas também não podemos trilhar o nocivo caminho de mudar o nosso estandarte".

A repressão aos dissidentes intensificou-se no início de 2011, quando muitos foram detidos em reação às tentativas de realização, na China, de protestos semelhantes aos que derrubaram regimes autoritários no mundo árabe.

A censura é um traço permanente do regime, que não poupa nem mesmo os líderes máximos. No discurso que fez na quinta-feira, quando foi apresentado como novo líder do país, Xi Jinping citou o problema de "dirigentes" do partido que "recebem propinas". As expressões não apareceram na versão das declarações distribuída pela imprensa oficial, na qual as menções à corrupção são mais genéricas.

Jiang ressaltou que as discussões sobre reformas políticas dentro do governo têm um caráter limitado e se referem a mudanças dentro do sistema de partido único, o que, para ele, não é uma reforma política real. "O partido não quer nem mesmo o primeiro tipo de mudança", afirma.

Em sua opinião, a ausência de transformações na estrutura do regime inviabilizará as tentativas de combate às irregularidades que atingem a organização. "Uma ditadura de partido único nunca conseguirá resolver problemas como a corrupção", observou.

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