Dissidentes cubanos exigem status de asilados

Grupo rejeita a condição de 'imigrante' oferecida pelo governo espanhol e pede que suas famílias sejam instaladas em locais mais confortáveis

Andrei Netto, correspondente em Paris, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2010 | 00h00

Os dissidentes cubanos libertados pelo governo de Raúl Castro e recebidos na terça-feira pela Espanha convocaram a imprensa ontem, em Madri, para reivindicar o status de asilados políticos, e não o de imigrantes. A diferença é determinante para o futuro do grupo, que teria direitos especiais de abrigo e de renda, além de terem reconhecidas suas condições de perseguidos políticos em Cuba, e não de simples expatriados.

A entrevista foi convocada às pressas no mesmo dia em que outros dois ex-presos políticos, Luis Milán e Mijail Bárzaga, chegaram ao país, somando-se aos nove que desembarcaram nos últimos dois dias. Todos são parte dos 52 dissidentes que Havana decidiu libertar.

De acordo com os líderes do movimento, o grupo ? que ontem somava mais de 50 pessoas, entre ex-detentos e familiares ? estaria entrando na legislação espanhola como "imigrante", quando essa não é sua condição. "Estamos em um limbo jurídico. Não somos livres, somos asilados políticos", disse o jornalista Julio Cesar Gálvez.

Embora se mostrassem satisfeitos com a acolhida, os cubanos já havia manifestado essa preocupação em conversa com o Estado. Na oportunidade, Gálvez afirmou que se reuniria com representantes do Ministério das Relações Exteriores da Espanha para discutir a situação, já que entre os cubanos havia muita desinformação. "Vivemos um desconhecimento total e completo sobre o que será de nossas vidas", afirmou o médico José Luis García Paneque.

Nos bastidores, existe a suspeita de que a concessão de status de imigrante ? e não de asilados políticos ? teria sido uma condição imposta pelo regime castrista no acordo firmado em 7 de julho com a Igreja Católica e o governo espanhol.

O objetivo seria tirar o "peso político" do grupo, que promete fazer oposição à ditadura a partir de Madri. Essa versão é negada pelo ministro das Relações Exteriores espanhol, Miguel Ángel Moratinos. Ele afirma que a opção pelo status de imigrante permite que os dissidentes possam, eventualmente, negociar o retorno a Cuba no futuro.

Essa posição, porém, mudou ontem, quando o governo da Espanha entrou em contato com os líderes do grupo e ofereceu a abertura de pedidos de asilo. A insegurança levou os dissidentes a convocara a entrevista e pedir em público uma definição.

Os cubanos também reivindicaram que sejam mantidos reunidos em Madri para manter a luta pela democracia em Cuba. A Comissão Espanhola de Ajuda ao Refugiado (Cear) pretendia dividir o grupo em centros de acolhimento em diferentes pontos do país. Enquanto aguardam uma solução burocrática, os cubanos estão instalados em um albergue em um distrito na periferia da capital espanhola. Os quartos coletivos não garantem intimidade aos casais ? que estavam separados pelo cárcere. Além disso, os banheiros também são públicos, o que gerou certo desconforto a presos doentes. Para suas despesas, cada família recebeu do governo espanhol ? 390.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.