Dissidentes cubanos ficam fora de cerimônia de reabertura de embaixada dos EUA

O secretário de Estado John Kerry se reunirá com opositores do regime dos Castros após hasteamento da bandeira americana; ele disse que pretende passear pela parte velha de Havana e prometeu defender mudanças políticas na ilha

Claudia Trevisan / Enviada Especial, Havana, O Estado de S. Paulo

13 de agosto de 2015 | 01h00

Cinquenta e quatro anos depois de ter sido retirada, a bandeira dos EUA voltará a ser içada amanhã diante do edifício da embaixada americana em Havana. Carregada de simbolismo, a cerimônia será comandada pelo secretário de Estado John Kerry, a mais alta autoridade de Washington a visitar a ilha em mais de cinco décadas.

O evento ocorrerá um dia depois do aniversário de 89 anos do líder Fidel Castro, cujo governo foi marcado pelo enfrentamento com os EUA no auge da Guerra Fria. Dissidentes não participarão da cerimônia, mas se encontrarão com Kerry no fim do dia.

Bandeiras cubanas foram estendidas das sacadas de edifícios vizinhos à Embaixada dos EUA, no Malecón, o mítico calçadão de quase oito quilômetros que separa o centro da cidade do mar. Segundo moradores locais, elas não são uma resposta à reabertura da Embaixada dos EUA, mas sim uma celebração do aniversário de Fidel e do Dia da Juventude, comemorado ontem. À rede de TV Univisión, o secretário de Estado americano disse que o hasteamento da bandeira será um evento de “governo a governo”, o que justificaria a ausência dos dissidentes na cerimônia.

A possibilidade de diplomatas americanos terem contatos com opositores do governo cubano foi um dos principais pontos das negociações que levaram à reabertura de embaixadas. As representações foram abertas no dia 20, mas a cerimônia em Havana com a presença de Kerry só ocorrerá amanhã.

“Depois de 54 anos vendo zero de progresso, uma das coisas que nós negociamos foi a possibilidade de nossos diplomatas poderem se encontrar com a população em Cuba e não serem restringidos”, afirmou Kerry a outra rede de TV de língua espanhola, a Telemundo.

O secretário também espera caminhar pela parte histórica de Havana e conversar com cidadãos cubanos. “Falaremos a favor da democracia, da liberdade do povo cubano de escolher o seu futuro”, disse à Univisión.

Entre os convidados para a cerimônia de amanhã está Wayne Smith, que era diplomata dos EUA em Havana quando a embaixada foi fechada, em 1961. Ele voltou a Cuba em 1979, para chefiar a Seção de Interesses, que havia sido aberta dois anos antes, durante o governo de Jimmy Carter. Segundo ele, o presidente americano queria abrir um diálogo mais amplo, mas a iniciativa encontrou resistência de Zbigniew Brzezinski, que chefiava o Conselho de Segurança Nacional.

A posse de Ronald Reagan, em 1981, inviabilizou qualquer projeto de reaproximação com a ilha. Diante desse cenário, Smith decidiu deixar a diplomacia e passar a defender o diálogo com Cuba no mundo acadêmico. “O embargo e a recusa em conversar não estavam nos levando a nenhum lugar”, disse ao Estado por telefone, antes de embarcar para Havana. “Em 2014 éramos nós que estávamos isolados na região, não Cuba.”

A abertura de embaixadas é apenas o primeiro passo, ressaltou. O embargo econômico dos EUA contra Cuba ainda precisa ser levantado e os dois países precisam chegar a um acordo sobre as exigências mútuas de compensação – os americanos pela expropriação de empresas e propriedades e os cubanos, pelos danos provocados pelo bloqueio econômico dos EUA.


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