Dissuasão da era da Guerra Fria

Apesar da aproximação Rússia-EUA, política da Destruição Mútua Assegurada e submarinos nucleares são mantidos

Timothy Egan, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2010 | 00h00

The New York Times

Estamos caçando mariscos em um dos dias mais longos do ano. Esses frutos do mar são uma imensa recompensa, trazendo à mente aquilo que os nativos sempre disseram sobre o Canal Puget: quando a maré recua, a mesa está servida. Então as águas se agitam e aparece na distância uma embarcação capaz de destruir boa parte do mundo num piscar de olhos.

Quando um submarino modelo Trident de 170 metros de comprimento vem à superfície, trazendo em seu ventre um arsenal nuclear capaz de arrasar um grande número de cidades, somos obrigados a conferir em que ano nos encontramos. Será 2010, ou 1964? Assim como o recente caso dos espiões russos nos fez perceber que a Guerra Fria ainda conserva um fascínio particular, a oportunidade de ver um submarino nuclear provoca uma reação parecida. A fatídica arquitetura da Destruição Mútua Assegurada (DMA) permanece quase totalmente operacional. O submarino avançava para a Base Naval Kitsap, que abriga o que o Seattle Times chamou em 2006 de maior armazém de armas nucleares dos EUA.

Estas embarcações ajudaram a manter a paz durante décadas. Mas e quanto à política por trás da DMA? Estará tão fora de moda quanto aqueles espiões? Enquanto elemento marítimo da dissuasão nuclear, os submarinos Trident garantem "a capacidade mais resistente e durável do país para realizar um ataque nuclear", segundo a Marinha. A missão deles é desferir um golpe final no caso de ocorrer o pior: um combate nuclear com os russos.

A DMA faz sentido no mundo racional: nem russos nem chineses tentariam acabar com os EUA, sabendo que acabariam com eles quase simultaneamente. Eles querem conviver e prosperar, assim como nós. Mas a DMA não faz tanto sentido num mundo em que os inimigos da civilização são fanáticos religiosos que habitam cavernas, atacam cartunistas e assassinam crianças inocentes durante transmissões de partidas de futebol.

A política americana tem como suas principais prioridades impedir a proliferação nuclear em estados imprevisíveis - Coreia do Norte e Irã - e o terror nuclear por parte de fanáticos independentes. Mas, em seguida, dá prosseguimento à tríade da dissuasão nuclear do período da Guerra Fria - a DMA. É verdade que um relatório do governo americano reconhece que EUA e Rússia reduziram em quase 75% seus arsenais de armas nucleares estratégicas desde o fim da Guerra Fria. E o novo acordo Start apoiado por Obama eliminaria um número ainda maior desses armamento.

Os republicanos mais informados a respeito da estratégia de defesa americana dizem que o novo pacto daria sequência aos esforços dos presidentes Reagan e Bush pai no sentido de reduzir as tensões da Guerra Fria.

Mas por que não pôr fim à Guerra Fria de uma vez por todas? Desconstruir a DMA, ou retirar algumas centenas de cidades da lista de alvos? Mesmo que o tratado seja aprovado, os EUA conservarão 240 mísseis balísticos em seus submarinos. Por que não uma reforma muito mais profunda nos paradigmas? Raramente o propósito destes submarinos é questionado, assim como o da própria DMA. E assim eles navegam pelo Canal Puget, impulsionados pela inércia de uma política da época das tevês preto e branco. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COMENTARISTA POLÍTICO

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