Distúrbios após morte de Benazir deixam 23 mortos

No dia em que ex-premiê paquistanesa é enterrada, governo afirma ter provas de participação da Al-Qaeda

NYT, REUTERS

28 de dezembro de 2007 | 14h41

Em meio a uma forte onda de distúrbios que já deixou ao menos 24 mortos em todo o país, centenas de milhares de paquistaneses participaram nesta sexta-feira, 28, do funeral da ex-premiê e líder oposicionista Benazir Bhutto, morta em um atentado que colocou o Paquistão numa das mais sérias crises políticas em seus 60 anos de independência. A maioria dos incidentes ocorreram em Sindh, a província natal de Benazir, onde o governo autorizou o uso de força letal contra os manifestantes.    Veja também:Paquistão culpa Al Qaeda por morte de BenazirÍndia reforça vigilância na fronteira Al-Qaeda assume assassinatoFilha de dinastia, Benazir era figura polêmica Análise: Paquistão em mares desconhecidosImagens Cronologia: A trajetória de Benazir Vídeo e análise com Roberto Godoy Blog do Guterman: Guerra civil à vista   Falando após a divulgação de boatos de que um líder da Al-Qaeda no Afeganistão estaria por trás do ataque, o Ministério do Interior paquistanês afirmou ter "informações de inteligência" dando conta de que a organização terrorista encomendou a morte da ex-premiê. Reagindo aos temores de que a reação à morte da ex-premiê torne-se um conflito civil, o primeiro-ministro paquistanês, Muhammad Mian Soomro, anunciou mais cedo nesta sexta-feira que o governo tentará reunir todos os partidos políticos com o objetivo de lançar um plano de ação conjunto. Soomro descartou, no entanto, especulações de que as eleições parlamentares marcadas para janeiro de 2008 sejam adiadas. O pleito deve por fim a oito anos de ditadura militar no Paquistão. Benazir era a principal candidata ao cargo de primeira-ministra.  Morta em um ataque a bomba precedido de tiroteio após um comício político na cidade de Rawapindi, na quinta-feira, 27, Benazir foi enterrada no mausoléu ao lado de seu pai, ele também um ex-primeiro-ministro que foi executado na década 1970. Os manifestantes que participaram do enterro entoaram músicas de protestos contra o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, e aos Estados Unidos. Inimigo político de Benazir, o general é um forte aliado de Washington na "guerra ao terror". Muitos dos partidários de Benazir acusam o governo de estar por trás do assassinato; outros, alegam que Musharraf não fez o suficiente para dar segurança a ex-premiê. Alvo de um atentado que deixou cerca de 150 mortos em outubro, a Benazir já tinha acusado membros do governo próximos a Musharraf pelo atentado.  Distúrbios em todo o país Além da província de Sindh, os distúrbios desencadeados pela morte da ex-premiê se espalharam por todo o Paquistão, indo da cidade oriental de Peshawar até a fronteira afegã. Manifestantes raivosos invadiram bancos em Karachi, capital de Sindh, e queimaram mais de 10 estações de trem.  Na cidade central de Multan, centenas de pessoas saíram às ruas atirando pedras contra bancos e postos de gasolina. Até em Islamabad - a relativamente calma capital do país - cerca de 100 manifestantes colocaram fogo em pneus.  Já em Peshawar, cerca de quatro mil seguidores da ex-premiê cantavam "Benazir estava viva ontem, Benaazir está viva hoje". Pai enforcado Benazir morreu em Rawalpindi, cidade que é sede do Exército e onde seu pai, o ex-premiê Zulfikar Ali Bhutto, foi enforcado em 1979, dois anos após ser deposto por um golpe militar.  O Paquistão passou mais de metade da sua história independente sob regimes militares, e o país está acostumado à violência política. Mesmo assim, o atentado contra Bhutto chocou adversários e aliados.  "Benazir Bhutto era um raio de esperança para os moderados", disse o bancário Abbas Raza, de Lahore. "Com a morte dela, perdemos toda a esperança."  O ex-primeiro-ministro Nawaz Sharif, que era rival de Bhutto, disse que seu partido vai boicotar a eleição de janeiro.  Ele culpou Musharraf, no poder desde um golpe militar em 1999, por criar instabilidade.  Em novembro, Musharraf impôs um estado de emergência, aparentemente para impedir que o Judiciário barrasse sua reeleição. Sob pressão doméstica e internacional, ele suspendeu as restrições em dezembro e abdicou do comando do Exército para tomar posse como presidente civil.

Tudo o que sabemos sobre:
PAQUISTAOPROTESTOSMORTOS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.