Distúrbios colocam Cameron sob pressão

Abalado pelo escândalo das escutas telefônicas, premiê enfrenta críticas por cortes orçamentários, a maioria na área social

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2011 | 00h00

LONDRES

David Cameron, primeiro-ministro britânico, está nas cordas. Há 15 meses no poder, ele enfrenta a pressão da opinião pública e da imprensa pela segunda vez em duas semanas. Depois do escândalo das escutas telefônicas envolvendo seu ex-porta-voz, o premiê enfrenta críticas pelo impacto de sua política de austeridade fiscal, que concentra os cortes gastos justamente nos programas sociais e na polícia.

Poucos na Grã-Bretanha duvidam que haja uma "cultura da violência" entre jovens das periferias do país. As divergências são sobre a origem dessa fratura social. Enquanto o chefe de governo critica a falta de repressão por parte da polícia e fala em negligência familiar e "imoralismo", seus críticos alertam para a desesperança criada por 30 anos abandono do Estado e pelo aumento da desigualdade, acentuados pela crise econômica.

Indiferente às críticas, Cameron anunciou que manterá os cortes de US$ 130 bilhões nos gastos públicos até 2015. O problema são os 20% a menos de verba para a polícia. Dos 32,2 mil servidores públicos que serão demitidos em quatro anos, 16,2 mil são policiais, o número exato de agentes que trouxe de volta a paz a Londres.

Há ainda os cortes em programas sociais. Tottenham, por exemplo, perderá US$ 66 milhões de seu orçamento, redução que chega a 75% do montante disponível para programas de empregos para jovens e para bolsas de estudos.

Para Amy Mollet, pesquisadora da London School of Economics (LSE), o discurso de Cameron, que em sua campanha pregava uma "sociedade unida", está desmoralizado com menos de um ano e meio de mandato.

"Vimos nos distúrbios pessoas motivadas pelas oportunidades de atacar a polícia e saquear, mas há também problemas de longa data sobre privações e falta de perspectivas concretas para jovens", disse ao Estado Michael Rosie, sociólogo da Universidade de Edimburgo. "O governo está fazendo populismo sobre as responsabilidades individuais. Está claro que há uma histórica abdicação da responsabilidade social entre as elites políticas britânicas."

George Jones, professor da LSE, é mais condescendente com Cameron. Para ele, não há explicações sociais para os protestos. "Não há nenhuma causa social profunda. Apenas criminalidade individual, defeitos morais e fracasso da polícia para manter a lei e a ordem." Certo ou errado, o discurso de Cameron divide o país. Pesquisa do instituto YouGov indicou que 57% dos britânicos reprovam a gestão da crise pelo premiê.

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