EFE/Laurent Gillieron
EFE/Laurent Gillieron

Ditador de Guiné Equatorial agora rejeita frota de luxo

Advogados de Teodorin Obiang, vice-presidente da Guiné Equatorial, dizem que veículos apreendidos são carros oficiais

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

26 Julho 2017 | 05h00

Na Guine Equatorial, mais de dois terços dos cidadãos vivem com menos de US$ 1 por dia. 90% da população não tem acesso à internet e a expectativa de vida é de apenas 53 anos, o equivalente à Europa dois séculos atrás. Mas, segundo o governo do país, o Estado é dono de uma coleção de carros de luxo avaliados em vários milhões de dólares. 

Isso é pelo menos o que os advogados do país africano argumentaram num tribunal suíço para tentar reaver 23 carros e 1 barco confiscados pelas autoridades de Genebra, sob suspeita de terem sido adquiridos graças a um desvio de proporções inéditas dos cofres do país. O autor do suposto desvio: Teodorin Obiang, filho do ditador e vice-presidente da Guiné Equatorial.

No ano passado, a Justiça suíça confiscou a coleção, que incluía um Bugatti Veyron, quatro Ferraris, incluindo uma Enzo e outra modelo 599GTB, um Porsche 918 Spyder, uma Lamborghini Veneno, outro Maybach, um Koenigesegg, um Aston Martin e até uma McLaren P1.  

Em 2016, o vice-presidente africano tentou embarcar os carros de luxo, depois que o MP de Genebra iniciara um processo contra ele por suspeita de corrupção. Temendo o confisco, seu objetivo era o de embarcar sua fortuna em um avião de carga alugado às pressas. Mas a polícia foi mais rápida. 

Os advogados de Obiang entraram com um recurso argumentando que a coleção é de “propriedade do Estado”, por isso não poderia ser confiscada e nem apontada como tendo sido alvo de um desvio de dinheiro. Os carros seriam usados, segundo eles, como “veículos oficiais” do governo e foram comprados “por ordem do Ministro do Interior”. 

Mas, nesta terça-feira, o argumento da defesa foi derrotado. “Parece ser pouco provável que veículos esportivos possam ser usados como carros oficiais”, apontaram os juízes suíços, destacando ainda que eles estavam registrados em nome do suspeito, não do Estado. “A aquisição dos veículos seria um ato de lavagem de dinheiro”, apontou.

Nos documentos do processo, obtidos pelo Estado, Obiang não apenas insistia que os carros são do Estado como alegava que foram levados para Genebra para passar por “reparos”. 

As autoridades suíças consideraram que os carros confiscados teriam sido adquiridos com fundos desviados e serviriam a fins pessoais. Para completar, os juízes estimam que o salário oficial do vice-presidente seria “insuficiente” para adquirir tais carros de luxo. 

Há cinco anos, Obiang já havia sido alvo de um confisco de outros 18 carros que mantinha na França, onde responde a um processo por “corrupção e desvio de dinheiro público” que, segundo procuradores, teria chegaria a 115 milhões de euros. Nos EUA, a Justiça também lacrou sua mansão em Malibu. Na garagem: mais 28 carros. 

Com apenas 720 mil pessoas, o minúsculo país enriqueceu graças ao descobrimento de petróleo. Mas esse dinheiro jamais chegou à população. O governo destina 0,6% de seu Produto Interno Bruto (PIB) para a educação e 20% das crianças estão em um estado de desnutrição profundo.

Em 2015, a escola de samba Beija-Flor homenageou a Guiné Equatorial em seu samba-enredo. Meios de comunicação como a BBC, The Wall Street Journal e outros europeus indicaram como a escola de samba teria sido financiada pelo ditador Teodoro Obiang, algo negado pela direção da Beija-Flor e pelo embaixador da Guiné no Brasil. 

Teodor Obiang, o pai do vice-presidente, chegou ao poder em 1979, em um sangrento golpe de Estado no qual tirou da presidência o próprio tio. Hoje, ele é o presidente africano com mais anos no poder, superando até mesmo Robert Mugabe, do Zimbábue, e sem previsão de deixar o cargo.

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