Ditador argentino é condenado a 25 anos

Bignone, último presidente do ciclo militar, conhecido por admitir a morte de ''apenas 8 mil civis'', cumprirá pena em presídio comum

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

O general Reynaldo Benito Bignone, último presidente da ditadura militar argentina (1976-1983), foi condenado ontem a 25 anos de prisão por responsabilidade em casos de roubos, sequestros e torturas no Campo de Mayo, o maior complexo de detenção dos anos 70 no país.

O veredicto foi anunciado no tribunal da cidade de San Martín, na Grande Buenos Aires. Bignone foi considerado culpado pelo sequestro de 29 pessoas e 38 casos de tortura. Foi a primeira vez que ele foi condenado por crimes de lesa-humanidade. A Justiça argentina determinou ainda que o general não poderá aproveitar o benefício de prisão domiciliar e terá de ficar confinado em uma penitenciária comum.

"Fala-se em 30 mil desaparecidos, mas nunca ficou demonstrado que foram mais de 8 mil", disse Bignone, antes de ouvir a sentença. Segundo cifras oficiais, 13 mil dissidentes foram mortos durante o regime militar na Argentina. Parentes de vítimas dizem que esse número é de 30 mil.

Bignone refutou ainda as cifras dos sequestros de bebês, filhos das desaparecidas. "Também fala-se em 500 roubos de bebês, mas (os sequestros) não chegam a 30 - e nenhum deles foi cometido por militares." O ex-ditador tentou justificar a repressão do regime militar. "A luta contra o terrorismo nos anos 60 e 70 foi uma guerra", disse.

Além de Bignone, foram condenados por crimes cometidos no Campo de Mayo outros cinco militares argentinos de alto escalão. Eles receberam penas que variam entre 17 e 25 anos de prisão. Um ex-policial foi absolvido.

Prisão da ditadura. Mais que uma prisão clandestina, Campo de Mayo era um centro de tortura e extermínio do Exército argentino. Calcula-se que cerca de 4 mil dissidentes estiveram presos no local, embora apenas meia centena tenha sobrevivido, de acordo com denúncias de organizações de defesa dos direitos humanos.

Dentro do Campo de Marte, funcionavam quatro centros de tortura e uma maternidade, onde as prisioneiras davam à luz. Após o parto, as mães eram assassinadas, enquanto que os bebês eram entregues para famílias de militares ou policiais sem filhos.

Bignone, uma das principais figuras do golpe de 1976, governou a Argentina entre o fim da Guerra das Malvinas, em junho de 1982, e a volta da democracia, em dezembro de 1983. Em 1985, ele foi julgado e condenado à prisão. No entanto, cinco anos mais tarde, foi indultado pelo então presidente Carlos Menem (1989-99).

Em 1999, foi detido novamente graças à uma brecha no indulto, que não contemplava o perdão pelo sequestro de crianças. Com a revogação das Leis de Perdão no Parlamento, em 2004 - e a confirmação dessa medida na Corte Suprema, em 2007 -, novos processos foram abertos contra Bignone.

Em janeiro do ano passado, o ex-presidente voltou ao banco dos réus pela acusação de sequestro, torturas e assassinatos de civis em Campo de Mayo.

Em 1983, poucos meses antes da volta à democracia, Bignone ordenou a eliminação dos arquivos da repressão da ditadura - principalmente aqueles que indicavam o paradeiro dos corpos dos prisioneiros políticos.

PARA LEMBRAR

Regime foi um dos mais Sangrentos

Em 24 de março de 1976 uma junta militar derrubou a presidente civil Isabelita Perón. A ditadura, que duraria sete anos, é considerada a mais sanguinária da história da América do Sul e teria deixado um saldo de 30 mil civis assassinados nos centros clandestinos de detenção. A ditadura também sequestrou 500 bebês. Dessas crianças, apenas 101 recuperaram sua identidade verdadeira até agora.

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