Ditador da Coreia do Norte rejeita perfil reformista

Depois de estreitar laços com jogador de basquetebol e gigantes da mídia, Kim Jong-un comprou as mesmas brigas do pai e do avô

FELIPE CORAZZA, ENVIADO ESPECIAL / PYONGYANG, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h07

Quando Kim Jong-un convidou o ex-astro do basquete americano Dennis Rodman para ver um jogo em Pyongyang, a chance de que o novo líder supremo da Coreia do Norte fosse um reformista pareceu factível. Kim, que assumiu em 2012 após a morte de seu pai, Kim Jong-il, também havia aberto diálogo com gigantes da comunicação, entre eles o Google. A perspectiva de mudanças rápidas, no entanto, logo se desfez.

Em abril, Kim renovou as ameaças de ataque à Coreia do Sul, a bases americanas na Ásia e até aos EUA. Na mesma semana, fechou o acesso ao complexo industrial de Kaesong, único grande projeto conjunto entre Norte e Sul, e manteve a retórica belicosa em alta enquanto consolidava as mudanças que realizou no alto escalão militar.

Se o objetivo era forçar Washington a negociar, como creem alguns analistas, a estratégia foi exagerada e mergulhou o país ainda mais fundo no isolamento. Aferrado às doutrinas consolidadas por seu pai e seu avô, Kim tenta, agora, apontar para um caminho centrado na melhoria das condições de vida da população, enquanto mantém a demonstrações de força militar e promete que não descuidará das defesas contra seus "inimigos externos".

Nesse contexto, a Coreia do Norte permitiu acesso a alguns representantes da imprensa estrangeira, entre eles a reportagem do Estado, durante as comemorações dos 60 anos do armistício que marcou o fim da guerra na Península Coreana, em 1953. O regime celebra a "vitória sobre os americanos", achando que derrotou as forças "arrogantes" dos EUA após três anos de combates.

Para os visitantes, as restrições começam após a decolagem do Tupolev-204 da Air Koryo. A bordo, comissários e outros funcionários da companhia aérea norte-coreana começam a pedir que os passageiros não fotografem durante a viagem. Em alguns casos, um funcionário pede para ver a câmera e apaga, ele mesmo, as fotos que considera inadequadas.

Depois do pouso no aeroporto escuro da capital, o controle aumenta. Militares que fazem a segurança da área de imigração vigiam os passageiros que desembarcam e abordam imediatamente os que começam a fazer imagens da área. Do lado de fora, guias e ônibus esperam para conduzir os visitantes aos próximos passos da viagem.

Jornalistas estrangeiros precisam fazer um registro específico, que custa 30 euros, e recebem uma braçadeira especial que devem usar em todos os eventos oficiais. A perda da braçadeira, avisam os guias, acarreta uma multa de 100. A comitiva também pode comprar chips de telefonia móvel da KoryoLink, primeira iniciativa do país na área. Os pequenos cartões também servem para conexão de internet 3G via celular.

No hotel, apesar de todas as restrições - não se pode sair sem autorização e a companhia de um guia -, há internet nos quartos a 14 euros. A navegação é livre e, diferentemente da China, o governo norte-coreano não restringe o acesso a redes como Twitter e Facebook. A medida não é necessária, já que a conexão fica restrita aos poucos locais escolhidos pelo próprio governo. A população, em geral, não tem acesso à internet.

Também parece difícil, à primeira vista, que qualquer publicação estrangeira consiga abalar a fé nos líderes que a propaganda oficial incute no povo. A doutrina oficial, o combate à ocupação japonesa e a Guerra da Coreia são temas onipresentes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.