Hani Mohammedi/AP
Hani Mohammedi/AP

Ditador diz pretender retornar ao Iêmen

EUA e Arábia Saudita pressionam para que Saleh, ferido em atentado, não volte

, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2011 | 00h00

RIAD

O presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, pretende retornar ao seu país "dentro de poucos dias", depois de se submeter a tratamento médico na capital saudita, disse ontem o vice-presidente e líder interino do país, Abd al-Rab Mansur al-Hadi, a diplomatas europeus e americanos.

O vice-presidente assumiu interinamente o governo depois que Saleh, que há meses se nega a renunciar ao cargo que ocupa há 33 anos, deixou o país às pressas no sábado, seguindo para a Arábia Saudita, depois de um ataque contra o complexo presidencial no dia anterior.

É possível que Saleh e seu assessores estejam simplesmente assumindo uma posição com o objetivo de obter o melhor acordo com os estrangeiros e iemenitas que procuram a saída do presidente. A afirmação de que ele retornaria ao poder mostra a dificuldade das autoridades americanas e sauditas para pôr fim ao impasse antes que a política do Iêmen lance o país num conflito mais amplo, uma perspectiva sinistra para o seu vizinho ao norte e para os EUA. O Iêmen abriga uma ala ativa da Al-Qaeda, que tentou realizar atentados terroristas nos EUA e quer derrubar a monarquia saudita.

No domingo, autoridades do governo Obama afirmaram que os EUA estão pressionando o presidente iemenita e seus aliados para aceitarem um acordo negociado pelos Estados árabes, incluindo a Arábia Saudita, que permitiria a saída dele do governo em troca de imunidade. Autoridades deram a entender que os EUA estão prontos a oferecer incentivos financeiros para Saleh abandonar a presidência.

Segundo alguns analistas, a liderança saudita não permitirá que Saleh retorne ao poder depois de meses de esforços para convencê-lo a renunciar. Mas há um elemento imprevisível nesses cálculos: muitos sauditas apoiam Saleh por causa da sua habilidade para eliminar os dissidentes. Embora uma autoridade iemenita tenha afirmado que alguns membros da família do presidente deixaram Sanaa, junto com Saleh, diversos filhos e sobrinhos do presidente, que controlam o poderoso Exército e os serviços de inteligência, não saíram do país.

O vice-presidente assumiu o governo interinamente, mas segundo analistas vai ter dificuldade para controlar a situação, especialmente se algumas facções entenderem que a ausência do presidente é uma oportunidade para derrubar a ele e sua família. Muitos dos inimigos de Saleh estão bem armados.

No domingo os líderes sauditas, que sempre se imiscuíram na política iemenita, estavam silenciosos quanto aos seus esforços com vistas a mudanças políticas no Iêmen. Uma possível indicação de que suas chances diminuíram depois do ataque ao complexo presidencial de Saleh, que redesenhou um debate sobre a liderança no país. Agências árabes, com base em informação dos médicos sauditas, disseram que o presidente foi submetido a duas operações para a remoção de pedaços de madeira. Ontem à noite, o jornal britânico The Guardian informou que Saleh tem queimaduras graves e extensas, que exigiriam uma internação demorada e cirurgias plásticas. Isso atrapalharia sua intenção de voltar logo ao Iêmen.

Embora os sauditas tenham dito a Saleh que ele tem que renunciar, uma mudança repentina no governo deve tornar mais difícil uma transferência ordenada do poder e possíveis eleições.

Para o cientista político Abdullah Hamidaddin, a Arábia Saudita quer a saída de Saleh porque seus líderes acham que isso significa "menos banho de sangue e menos incertezas". Mas, ele disse, "eles querem que isso ocorram de maneira a não criar um vazio de poder e um futuro imprevisível".

Os muitos rivais no poder no Iêmen mantêm uma relação venenosa, que só é controlada por influência saudita e as hábeis manobras políticas de Saleh, como a sua habilidade para colocar as tribos umas contra as outras quando conveniente. Quanto às rivalidades, é conhecida a competição entre o filho mais velho de Saleh, que lidera a poderosa Guarda Republicana, e Ali Moshin al-Ahmar, general que desertou recentemente. / NYT

PONTOS-CHAVE

Aumento da pressão sobre líder iemenita

Aliança com os EUA

Os americanos apoiaram o governo de Saleh nos últimos anos para limitar a influência da Al-Qaeda no país, terreno fértil para o terrorismo islâmico

Acordos frustrados

Após 33 anos no poder, Saleh comprometeu-se três vezes a deixar a presidência em troca de imunidade. Em todas elas, desistiu de assinar os acordos

Bombardeio ao palácio

Na sexta-feira, Saleh foi ferido na mesquita do palácio presidencial e levado à Arábia Saudita. Os EUA querem um sucessor que combata a Al-Qaeda

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