Ditador do Camboja completa 10 mil dias no poder

Apesar das deposições da Primavera Árabe, Hun Sen entra para o clube dos autocratas há mais tempo no cargo sem sofrer pressão internacional

BRAD ADAMS, THE NEW YORK TIMES , BANGCOC, É DIRETOR PARA ÁSIA DA HUMAN RIGHTS WATCH, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h03

"Eu não enfraqueço apenas a oposição, vou acabar com ela. E se alguém tiver força suficiente para realizar uma manifestação, vou espancar todos esses cães e colocá-los numa jaula." Não foi Muamar Kadafi quem deu essa declaração. O orador era o premiê do Camboja, Hun Sen, respondendo à sugestão de um crítico de que ele deveria se preocupar com a queda do ditador da Tunísia.

Omitido em discussões sobre os mais notórios autocratas do mundo, Hun Sen se juntou ao Clube dos 10 mil: o grupo de ditadores que, mediante violência, corrupção e apoio de potências estrangeiras conseguiu permanecer no poder por 10 mil dias.

Com a queda de ditadores na Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, as fileiras do Clube dos 10 mil foram reduzidas, fazendo de Hun Sen um dos dez líderes que permanecem há mais tempo no poder em todo o mundo.

Ex-comandante do Khmer Vermelho, ele se revelou um líder inteligente e implacável, capaz de manter fora de prumo seus adversários e críticos internacionais. Sua principal tática é a ameaça e o uso da força.

Quando a força de paz da ONU entrou no Camboja para assegurar o Acordo de Paz de Paris, de 1991, ele mobilizou as forças de segurança para intimidar e atacar membros da oposição. Mais de cem dissidentes foram mortos sob o nariz da ONU.

Em 1977, sua unidade de guarda-costas envolveu-se num ataque a uma manifestação do líder da oposição, Sam Rainsy, em que 16 pessoas morreram e mais de 150 ficaram feridas. Como houve um americano ferido, o FBI foi enviado para investigar e concluiu que a cadeia de comando levava a Hun Sen.

Meses depois, temendo perder a eleição, ele deu um golpe de Estado contra seus parceiros da coalizão. Unidades sob o seu comando cometeram mais de cem assassinatos. Meus colegas da ONU e eu desenterramos cadáveres de homens usando apenas roupas de baixo, algemados, vendados e executados a tiros. Ninguém foi responsabilizado.

Agora, um dos problemas do Camboja é o confisco de terras por aliados de Hun Sen, o que provocou protestos generalizados. Em abril, Chut Wutty, ativista ambiental mais conhecido do Camboja, foi baleado enquanto investigava venda ilegal de madeira. No início, o governo disse que ele foi morto num tiroteio. Depois, por um soldado que se suicidou atirando duas vezes no próprio peito.

A corrupção generalizada é o assunto que mais enfurece os cambojanos. Embora Hun Sen trabalhe para o governo cambojano desde 1979, ele é rico. Dez anos atrás, uma autoridade americana me contou que os EUA estimavam a riqueza pessoal do ditador em US$ 500 milhões.

Hoje, Hun Sen governa o Camboja com mão de ferro, um fato que nenhum diplomata em Phnom Penh contestaria. Ele obrigou o líder da oposição, Sam Rainsy, a se exilar após ter orquestrado para ele uma pena de dez anos de prisão por um protesto não violento.

O país enfrenta o trauma de eleições manipuladas a cada cinco anos. Em 1998, após eleições fraudadas, milhares de manifestantes invadiram as ruas de Phnom Penh. Em um desafio ao estilo da Praça Tahrir, eles criaram a Praça da Democracia num parque e pediram uma recontagem ou novas eleições. Hun Sen enviou suas tropas de choque e esvaziou o parque. O Ocidente protestou, mas não fez nada.

Quando os cambojanos tiveram sua primavera, o mundo não os apoiou. Aos 59 anos, Hun Sen é o membro mais jovem do Clube dos 10 mil. Ele pretende governar até os 80 anos. Depois do movimento democrático da Primavera Árabe, os cambojanos se questionam por que ninguém se importa com o Camboja.

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