Lourival Sant'Anna/AE
Lourival Sant'Anna/AE

Ditadura aprisionou parentes de rei deposto

Regime espalhou a versão de que levante líbio era uma conspiração para restabelecer reinado de Idris Sanussi, derrubado por ditador há 42 anos

, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2011 | 00h00

TRÍPOLI

Desde o início do levante líbio, o regime de Muamar Kadafi buscou narrativas que ocultassem a origem dos protestos: a revolta contra os 42 anos de ditadura. Falava-se de uma ofensiva da Al-Qaeda, de uma cruzada colonial cristã ocidental e, finalmente, de uma conspiração para restaurar a monarquia. Oito parentes do rei Idris Sanussi, deposto por Kadafi em 1969, sofreram na pele o esforço do aparato de segurança em provar a última teoria.

A execução dos oito primos, marcada para 1.º de setembro, aniversário do golpe de Kadafi, só não ocorreu porque o regime caiu antes. O dentista Khalid Sherif, de 38 anos, foi o primeiro manifestante preso em Trípoli, no primeiro protesto, em 17 de fevereiro, em Fashlum, na região central da cidade. Rapidamente seus captores perceberam o valor do prisioneiro: seu tataravô era irmão do avô do rei Idris. Khalid, que faz doutorado em Viena, voltava do funeral de sua tia em Tobruk, terra natal de Idris e reduto oposicionista no extremo leste da Líbia. Foi acusado de ter ido fazer contato com a "célula" monarquista de lá. A mesma acusação seria feita contra seus dois irmãos e cinco primos.

Khalid foi levado para o chamado Escritório Al-Nasser, quartel-general da Mukhabarat, a polícia secreta, no bairro de Abu Salim, no sul de Trípoli. O prédios administrativos do complexo foram destruídos por bombardeios da Otan, que mantiveram intactas as alas onde estavam os prisioneiros. Lá foi interrogado pelo próprio ministro do Interior do antigo governo, Mansur Daw. Os espancamentos e choques elétricos ficavam a cargo do chefe da Mukhabarat, Abdullah Mansur; do n.º 2, Tuhami Khalid, e do n.º 3, Abdel Hamid al-Sayeh.

Dois dias depois, seus irmãos Ashraf, de 22 anos, estudante de engenharia civil, e Mohamed, de 19, que faz curso para piloto, foram presos em casa. Cinco primos foram presos em seguida.

Abulgasem Sherif, pai de Khaled, Ashraf e Mohamed, conta que esteve "dez vezes" em Al-Nasser. "Eu sabia que não podia vê-los, mas só pedia para me dizerem se algum dos meus filhos estava lá. Eles respondiam que lá não havia presos."

Khalid foi confinado numa cela de 1,80 metro por 90 centímetros pintada de preto, com um pequeno buraco no teto. "Era inverno, a chuva inundava a cela e ficava muito frio", recorda Khalid, que sofre do coração. Na parede da cela 2 ainda está a mancha de sangue feita quando ele apoiou o rosto, depois de uma sessão de tortura. Os presos podiam sair três vezes por dia para ir ao banheiro no fim do corredor, mas só tinham dois minutos para isso: um guarda batia 120 vezes no chão e ao final os obrigava a sair. Khalid ficou 50 dias sem banho. "Os guardas vinham de máscara, por causa do mau cheiro."

No terceiro dia, Khalid ouviu um homem chorando na cela ao lado. Procurou consolá-lo: "Sairemos daqui um dia". Seu irmão Ashraf reconheceu sua voz. Os guardas perceberam e o transferiram para outra ala. Disseram que Mohamed tinha sido solto, mas na verdade ele foi levado para a prisão de Ein Zara, no sudeste de Trípoli.

Depois de 74 dias, Khalid foi transferido para a prisão de Abu Salim, a mais temida da Líbia. Ashraf ficou 85 dias e também foi para Abu Salim. Sensibilizados pela doença cardíaca de Khalid, os guardas colocaram discretamente os irmãos juntos, numa cela de 2 metros por 3, com outros dois presos. Tinham de revezar-se para deitar.

"Havia um guarda muito mau, chamado Issam", recorda Khalid. Uma vez ele disse a Issam: "Por Deus, não nos trate assim, somos humanos". O guarda respondeu: "Deus não é importante. Meu deus é Kadafi". Os ex-presos têm uma página no Facebook, que já tem 800 participantes. Os que estiveram no Escritório Nasser têm trocado mensagens e decidiram que, se encontrarem Issam, vão matá-lo. Os três irmãos só foram soltos quando os rebeldes invadiram as prisões.

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