''Ditadura argentina foi guerra justa'', diz Videla

Durante julgamento, ex-ditador justifica repressão de civis; tribunal anunciará hoje veredicto sobre acusações de 31 mortes e 5 torturas

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2010 | 00h00

O ex-ditador argentino Jorge Rafael Videla, de 84 anos, defendeu ontem a atuação de seu governo na repressão de civis considerados "subversivos" pela ditadura militar no país. "Foi uma guerra justa, como dizia São Tomás de Aquino", afirmou Videla diante de um tribunal em Córdoba, na região central da Argentina.

Vestido como civil, de terno, Videla, falou com voz firme durante 45 minutos. Seu discurso foi transmitido ao vivo pelos principais canais de TV do país.

Hoje, no mesmo tribunal, Videla ouvirá do juiz o veredicto sobre a acusação de ser responsável direto por 31 mortes - camufladas na época como simulacros de fugas - e cinco torturas ocorridas em 1976 na Unidade Penitenciária San Martín, que havia sido transformada em um campo de concentração de presos políticos.

A Promotoria pediu prisão perpétua para o ex-ditador. Videla é considerado o "arquiteto" do sistema de repressão aplicado pela ditadura, que torturou e assassinou 30 mil civis, além de sequestrar 500 bebês. Ontem, ele insistiu na teoria de que nos anos 70 a Argentina estava dominado por uma "guerra interna" provocada por "subversivos estimulados pela União Soviética". Segundo ele, para defender "o tradicional estilo de vida dos argentinos" foi necessário apelar às forças armadas e "aniquilar" os "grupos terroristas".

"Recuso-me a aceitar a expressão "guerra suja", pois foi uma guerra limpa, defensiva", afirmou o ex-ditador. Videla, sem citar a censura que imperava durante seu governo e o exílio ou prisão dos opositores, ressaltou que a ditadura "contou com adesão majoritária da população".

O Tribunal Oral Federal Número 2 preparava-se ontem no início da noite para anunciar o veredicto sobre 17 ex-torturadores da ditadura que atuaram nos campos de detenção e tortura de El Olimpo, Club Atlético e Banco, onde foram torturados cerca de 1.500 civis. Esse grupo de ex-torturadores que operava no denominado "circuito do terror" é acusado de 181 crimes, entre os quais torturas, sequestros, estupros e assassinatos.

Entre os protagonistas do circuito estão alguns dos mais famosos torturadores da ditadura. Um deles é o policial Julio "El Turco" Simón, famoso por estuprar as prisioneiras na frente de seus maridos. Ele ficou conhecido por seu sadismo extremo com os presos judeus e deficientes físicos. Em seus tempos de glória durante o regime militar, Simón definia a si próprio como "Deus da vida e da morte".

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