'Ditadura brasileira era o modelo dos golpistas chilenos'

Militares do Chile queriam reproduzir fórmula criada no Brasil em 1964, afirma historiadora que achou os papéis secretos chilenos

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2013 | 02h02

A historiadora britânica Tania Harmer, da London School of Economics, foi quem descobriu a existência dos papéis diplomáticos chilenos que descrevem a participação do Brasil no golpe de 1973. A seguir, a entrevista dela ao Estado.

Além do apoio material do Brasil em 1973, a sra. aponta para o 'exemplo' brasileiro aos militares chilenos. Como é isso?

Os golpistas chilenos não queriam criar uma democracia nos moldes dos EUA, mas uma ditadura militar como a instaurada no Brasil em 1964. Eles queriam recriar esse Brasil no Chile para frear a "ameaça comunista" e "restabelecer a ordem". E foi isso o que fizeram.

E por que Salvador Allende e Cuba subestimaram a ameaça que a ditadura brasileira representava aos planos da esquerda latino-americana?

Primeiro, os EUA eram o foco principal dos movimentos de esquerda da região. E havia a crença de que Washington era uma potência imperial, capaz de manipular tudo na América Latina, usando seu poder econômico, financeiro e político. O regime militar que nasceu no Brasil após o golpe de 1964 passou a ser visto pela esquerda como um fantoche do imperialismo americano. As charges nos jornais cubanos mostravam um ditador brasileiro com fios de marionete sendo manipulado pelo Tio Sam. Mas isso era equivocado, pois os generais brasileiros não estavam sob controle dos EUA, eles iam atrás do que consideravam o interesse nacional do Brasil, mesmo se isso entrasse em conflito com os americanos. Foi um erro de interpretação fundado na ortodoxia marxista e nunca houve uma compreensão mais elaborada sobre as relações entre Brasília e Washington.

O que tornou a 'questão

chilena' tão explosiva?

Parte da importância que o Chile ganhou tem a ver com o contexto internacional do fim dos anos 60 e o pavor, em algumas capitais, diante do risco de ver revoluções se espalharem. Hoje, não entendemos bem isso, pois, no fim, essa ameaça foi frustrada. Mas, na época, era uma possibilidade real. No início dos anos 70, o regime militar brasileiro havia se consolidado totalmente, mas havia temores em sua vizinhança: na Bolívia, de Juan José Torres (ditador nacionalista de esquerda), no Uruguai, com a guerrilha dos Tupamaros e, depois, no Chile.

O caso chileno era particular?

Sim, era um tipo de revolução nova, fora do modelo cubano, um governo marxista democraticamente eleito. Todos os olhos, portanto, estavam voltados para o Chile, não apenas os do Brasil. Estudante britânicos, americanos e mexicanos de esquerda foram ao Chile ver o que estava acontecendo. O país era um centro para a Teologia da Libertação, era a sede da Cepal e, claro, destino de exilados de vários países, incluindo o Brasil.

Brasil e EUA atuaram juntos contra Allende?

Digamos que eles trocaram informações, mas operaram em caminhos paralelos. Quando Médici esteve com Nixon na Casa Branca, em dezembro de 1971, os brasileiros informaram aos americanos o que estavam fazendo contra Allende, abrindo as portas para uma colaboração futura. Mas havia diferenças: em uma lógica de equilíbrio de poder, o Brasil temia um governo de esquerda na vizinhança, enquanto Bolívia e Uruguai também passavam por momentos delicados. Os EUA, por sua vez, viam Allende como um desafio a sua hegemonia regional e a sua credibilidade, dentro de um contexto de Guerra Fria, enquanto se negociava uma retirada do Vietnã. / R.S.

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