Ditadura no Brasil ´não foi violenta como a do Chile´, diz Lula

Horas depois de inaugurar o Museu Nacional Honestino Guimarães, nome que homenageia líder estudantil preso e "desaparecido" (morto) na década de 1970, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a ditadura brasileira (1964-1985) "não foi violenta como a do Chile e de outros países". A declaração de Lula, que deve provocar reações entre familiares de vítimas da tortura e militantes de Direitos Humanos, encerra uma semana em que o presidente chamou a ditadura chilena de Augusto Pinochet (1973-1990) de "período sombrio"."O Brasil tem uma história diferente de outros países. Mesmo a ditadura no Brasil não foi violenta como foi no Chile e em outros países", disse Lula a jornalistas no Clube do Exército, onde participou do almoço de fim de ano com oficiais generais das Forças Armadas. "No Brasil nós tivemos um processo de anistia negociado inclusive com as pessoas que participaram e foram vítimas", prosseguiu o presidente.A abertura dos arquivos sobre a repressão a militantes de esquerda na ditadura militar é uma reivindicação de familiares de vítimas que o governo Lula não conseguiu responder completamente.Parte da história permanece obscura por falta de documentos, especialmente sobre o combate e extermínio dos militantes do PCdoB na Guerrilha do Araguaia (1971-1973). Os comandos do Exército, Marinha e Aeronáutica negam ter arquivos secretos sobre a repressão aos esquerdistas."Tem muita coisa que nós não descobrimos, apesar de termos investigado. Determinadas coisas você só vai saber se alguém que participou contar", justificou Lula, lembrando que a documentação disponível foi aberta a consulta no Arquivo Público. Pinochet Logo depois do anúncio da morte do ex-ditador Augusto Pinochet, no domingo, Lula foi um dos primeiros chefes de Estado a se pronunciar, condenando a sangrenta ditadura no Chile, onde alguns brasileiros estão entre os mais de 3 mil opositores oficialmente mortos."Pinochet simbolizou um período sombrio na história da América do Sul. Foi uma longa noite em que as luzes da democracia desapareceram, apagadas por golpes autoritários", disse Lula em nota oficial.No dia seguinte, o presidente provocou polêmica entre aliados e críticos, ao comentar, durante homenagem em São Paulo, que aos 61 anos de idade considera ter alcançado "o equilíbrio" entre as ideologias de esquerda e de direita."Se você conhecer uma pessoa idosa esquerdista é porque está com problema. Se acontecer de conhecer alguém muito novo de direita é porque também está com problema", disse Lula na ocasião.Honestino Guimarães foi líder estudantil na Universidade de Brasília. Militante clandestino da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), foi preso e desapareceu em 1973.O museu que leva seu nome, inaugurado por Lula na manhã desta sexta-feira, é a última obra do arquiteto comunista Oscar Niemeyer em Brasília, completando um ciclo de prédios monumentais iniciado em 1960.Ao discursar para os oficiais generais, Lula mencionou com elogios e críticas três generais-presidentes da ditadura brasileira. Lembrou que no governo Emílio Médici (1969-74) o Brasil chegou a crescer 13% ao ano, mas houve redução do salário. Disse também que Ernesto Geisel (1974-79)1 foi o último presidente a investir em infra-estrutura, "mas deixou um pepino danado" para João Baptista Figueiredo (1979-85), que herdou a dívida desses investimentos.

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