Ditaduras agora adotam punho de veludo

Os novos autocratas com frequência chegam ao poder por eleições razoavelmente limpas, cooptam críticos potenciais e raramente usam a violência

SERGEI GURIEV &, DANIEL TREISMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2015 | 02h00

A imagem tradicional de uma ditadura é a de um governo sustentado pela violência. Nos sistemas totalitários do século 20, tiranos como Stalin, Hitler e Mao assassinaram milhões em nome de ideologias bizarras. Líderes fortes como Mobutu Sese Seko, do Zaire, deixaram rastros de sangue.

Mas nas últimas décadas evoluiu um novo tipo de governo autoritário mais bem adaptado a uma era de mídia global, interdependência econômica e tecnologia da informação. Os ditadores "soft" concentram poder, sufocam a oposição, eliminam pesos e contrapesos e só raramente usam violência.

As doutrinas de líderes e ex-líderes - Alberto Fujimori, do Peru, Vladimir Putin, da Rússia, Viktor Orban, da Hungria, Recep Tayyip Erdogan, da Turquia, Mahathir Mohamad, da Malásia, e Hugo Chávez, da Venezuela - ameaçam reformular a ordem mundial à sua imagem e semelhança, substituindo princípios de liberdade e lei, mantidos ainda que imperfeitamente por potências ocidentais por cinismo e corrupção. O Ocidente precisa compreender como esses regimes operam e como enfrentá-los.

Alguns regimes sanguinários ou ideológicos persistem - como na Síria e na Coreia do Norte -, mas o balanço mudou. Em 1982, 27% dos regimes não democráticos se envolveram em assassinatos em massa. Em 2012, somente 6% o fizeram. No mesmo período, a proporção dos regimes não democráticos sem Legislativo eleito caiu de 31% para 15%.

Esta mudança radical pode ter começado com Lee Kuan Yew, de Cingapura, que combinou instituições parlamentares com controle social, prisões políticas ocasionais e processos legais frequentes para intimidar a imprensa, mas também instituiu políticas favoráveis aos negócios que ajudaram a alimentar um crescimento astronômico.

Os novos autocratas com frequência chegam ao poder pela via de eleições razoavelmente limpas. Chávez, por exemplo, venceu em 1998 no que observadores internacionais chamaram de uma das eleições mais transparentes da história da Venezuela. Os altos índices de aprovação são um caminho mais econômico para o poder do que o terror. Erdogan explorou sua popularidade para emendar a Constituição em um referendo e manipular o Tribunal Constitucional da Turquia.

Os novos autocratas usam a propaganda, a censura e outros truques de informação para inflar seus índices e convencer os cidadãos de sua superioridade sobre as alternativas disponíveis. Eles vendem um amorfo ressentimento contra o Ocidente. Orban zomba da correção política e da competitividade em queda da Europa, enquanto pede ajuda aos desenvolvidos da União Europeia.

Quando suas economias vão bem, esses líderes cooptam críticos potenciais com recompensas materiais. Nos tempos mais difíceis, usam a censura. Os novos autocratas subornam donos de veículos de mídia com contratos publicitários, ameaçam com ações por difamação e encorajam investidores favoráveis ao regime a comprar publicações de tom crítico.

Eles dominam a internet bloqueando o acesso a sites independentes, contratando "trolls" - falsos instigadores de debates em fóruns eletrônicos - para inundar páginas de comentários com spam favorável ao regime e pagando hackers para vandalizar sites de mídia online de oposição.

As novas ditaduras preservam um bolsão de oposição democrática para simular competição. As eleições comprovam a popularidade do chefe. No Casaquistão, o presidente Nursultan Nazarbaev foi reeleito recentemente com 97,7% dos votos.

A tecnologia publicitária que foi idealizada para vender Fords e latas de Pepsi é reaplicada. Putin contratou uma importante empresa de relações públicas ocidental, a Ketchum, para fazer lobby pelos interesses do Kremlin no Ocidente. Outros recrutam ex-líderes ocidentais como consultores - Nazarbaev, por exemplo, contratou Tony Blair - ou doam para suas fundações.

Os novos autocratas raramente usam a violência. Essa é sua principal inovação. Hitler celebrizou-se por liquidar inimigos. Mobutu enforcava rivais diante de multidões de espectadores, enquanto Idi Amin, de Uganda, alimentava crocodilos com os corpos de suas vítimas. Assumir a responsabilidade era parte da estratégia: ela assustava os cidadãos.

Os novos autocratas não são escrupulosos - eles podem reprimir cruelmente separatistas ou espancar manifestantes desarmados. Mas a violência revela a verdadeira natureza do regime e transforma seguidores em oponentes. Os ditadores de hoje negam cuidadosamente cumplicidade quando ativistas de oposição ou jornalistas são assassinados. Tome-se o caso do ex-presidente ucraniano Leonid Kuchma.

Uma fita que teria sido gravada com ele ordenando o sequestro de um jornalista, Georgi Gongadze, que depois foi encontrado morto, ajudou a alimentar a Revolução Laranja de 2004, que levou rivais de Kuchma ao poder. E a violência não é apenas dispendiosa - é desnecessária. Os novos autoritários preferem imobilizar rivais com intermináveis processos judiciais, interrogatórios e outras formalidades jurídicas.

Não há necessidade de criar mártires quando se pode derrotar oponentes gastando seu tempo. Os agentes de Putin iniciaram inúmeras ações criminais contra o líder de oposição Aleksei Navalni: ele foi acusado de fraudar uma empresa de cosméticos francesa, roubar madeira e foi interrogado sobre a morte de um alce.

O Ocidente precisa enfrentar seu papel na ascensão desses autocratas. As democracias ocidentais deveriam produzir notícias objetivas em línguas nativas para se contrapor à propaganda e à censura. E como as "ditaduras de informação" são suscetíveis às pressões da modernização e a falências econômicas, precisamos ter paciência.

Além da propaganda, os cidadãos recebem informações em seus contracheques - no idioma russo, eles podem escolher entre "a televisão e a geladeira". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

GURIEV É ECONOMISTA RUSSO. TREISMAN É CIENTISTA POLÍTICO AMERICANO

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