Divergência entre rivais venezuelanos se acirra

Apesar de garantirem disposição para negociar, governo e oposição aumentam tom das acusações antes de chegada de comissão da Unasul, em abril

DENISE CHRISPIM MARIN, ENVIADA ESPECIAL / CARACAS, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2014 | 02h00

Governo e oposição na Venezuela se declararam abertos e prontos para negociar um acordo para pôr fim à violência. Ambos os lados, porém, intensificaram os ataques recíprocos nos últimos dias enquanto esperam a chegada da comissão da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que terá a missão de mediar a negociação. Os chanceleres dos países do bloco devem desembarcar em Caracas na primeira semana de abril.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, fez um chamado aos opositores da Mesa da Unidade Democrática (MUD) para a negociação na sexta-feira, mas acusou seus adversários de promoverem o golpismo e de serem os únicos responsáveis pela violência, que deixou 28 mortos e 1,5 mil presos em quatro semanas.

A MUD impôs condições para começar o diálogo, o que Maduro negou. Entre elas, a libertação de Leopoldo López, ex-prefeito de Chacao e líder do partido Vontade Popular (VP), o mais radical da oposição, e de todos os presos políticos. López tem de participar das conversas, insistem os líderes do VP.

A oposição insiste na anulação de mais de 800 processos judiciais, iniciados nas últimas três semanas, e os que já se acumulavam contra 3 mil líderes sindicais e associações civis.

Hoje, líderes estudantis e dos partidos de oposição testam o limite do governo e de seu aparato de repressão em uma nova manifestação para pedir a expulsão de agentes cubanos empregados em órgãos de segurança, cartórios e nas Forças Armadas.

Os protestos serão liderados pelo prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, pela deputada María Corina Machado e pelo vereador Freddy Guevara, cada um representante dos três principais partidos de oposição.

As ruas de Caracas, principalmente o entorno da Praça Altamira, continuavam ontem sujas de lixo e de restos de barricadas. A carestia de produtos básicos prevalece na capital. À lista de itens, como papel higiênico, leite em pó e medicamentos, soma-se a farinha de milho, o principal ingrediente do pãozinho venezuelano, a arepa, e os aparelhos de barbear.

Na frente do supermercado Plaza's, dezenas de pessoas esperavam por mais de uma hora na fila para comprar farinha na sexta-feira. Funcionários, na portaria, contavam quem poderia entrar. As farmácias da região exibiam prateleiras vazias e até postos de gasolina lacraram suas bombas por falta de produto.

"Só não falta a cerveja e o uísque", afirmou ao Estado um diplomata estrangeiro que vive na Venezuela há quatro anos. "O governo só vai negociar nos seus termos. A oposição também deve ceder pouco."

A comissão da Unasul ainda não foi formada. Maduro, na coletiva da sexta-feira, delicadamente, declinou a oferta do presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, de atuar como mediador. A expectativa de Maduro é a de que a vinda dos chanceleres destrave o diálogo. Ele mesmo, porém, tratou de limitar a atuação da Unasul. Em vez de mediação, ele disse que seu papel será de "acompanhamento e apoio".

A preocupação dos EUA, compartilhada também por diplomatas sul-americanos, está na falta de capacidade do governo de decidir e de adotar medidas para contornar a crise de abastecimento e a inflação, que alcançou em fevereiro a taxa anualizada de 57,3%.

Os EUA são o principal destino das exportações de petróleo da Venezuela. Um colaborador do presidente americano, Barack Obama, afirmou ao Estado que os desafios críticos e necessários, neste momento, são alcançar um acordo razoável para os dois lados e controlar a violência. "Senão, o clima de ação e reação violenta vai continuar cada vez mais forte", disse.

No entanto, a declaração da Unasul sobre a criação da comissão para mediar o diálogo, para a Casa Branca, foi "infeliz" e indicou um mau começo. Ao rechaçar os "recentes atos de violência" no país, o texto não atribuiu a responsabilidade ao governo de Maduro. Para o colaborador de Obama, essa posição enfraqueceu o poder mediador da Unasul e deu um sinal de que dificilmente um acordo será alcançado.

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