Divergência testa sobrevivência de líderes no Kremlin

Questão líbia causa desconforto entre Medvedev e Putin

Ellen Barry, do Thw New York Times, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2011 | 00h00

Foi uma estranha semana para a elite política da Rússia. Na segunda-feira, as autoridades se defrontaram com um raro momento de desacordo mútuo entre os dois homens que dirigem o país. O premiê Vladimir Putin criticou acerbamente os ataques aliados contra a Líbia - o mesmo tipo de protesto feito após as intervenções do Ocidente no Iraque e Kosovo. O presidente Dimitri Medvedev, que tem mostrado uma posição pró-Ocidente, retrucou, qualificando a linguagem usada por Putin de "inaceitável". Isso colocou os políticos ligados ao Kremlin numa posição desconfortável de navegar entre os dois homens, sendo que um deles poderá ser o próximo presidente. E como crianças no meio de uma briga entre os pais - e impelidos pelo instinto de autopreservação, que é universal - eles fazem todo o possível para não ter de se posicionar de um lado ou do outro. Quando, na quarta-feira, o Parlamento emitiu um comunicado sobre o assunto, coube aos estrangeiros à política afirmar o óbvio.

"Compreendo que você fique emperrado entre duas torres do Kremlin, mas por que o prestígio internacional da Rússia deve sofrer em consequência?", indagou Leonid I. Kalashnikov, parlamentar comunista que defendeu o poder de veto da Rússia na ONU para se posicionar contra os ataques aéreos.

Com menos de um ano para as eleições presidenciais de 2012, ainda é um mistério se Medvedev se candidatará a um segundo mandato ou se vai se afastar para dar espaço para Putin, que continua o político mais popular da Rússia. As autoridades descartam repetidamente os rumores de que os dois homens competem entre si.

A TV estatal abordou por cima as divergências sobre a Líbia, mantendo a política russa nessa situação incerta que provavelmente continuará por meses. Mas duas coisas ficaram claras: em primeiro lugar, apesar da sua aliança, os dois homens divergem quanto às relações com o Ocidente; e segundo, as pessoas em torno deles têm medo de tomar partido.

O porta-voz de Putin foi um dos primeiros a agir assim. No dia seguinte ao fato, declarou que Medvedev dirigia a política externa e o premiê apenas expressou sua "opinião pessoal". Para Andrei A. Klimov, parlamentar membro do partido Rússia Unida, no governo, os estrangeiros tendem a exagerar o poder de Putin nos assuntos da Rússia.

"Conheço dezenas de casos em que Putin queria uma coisa, mas ocorreu exatamente o contrário." E também subestimou as divergências com Medvedev. "Mesmo um homem e sua mulher numa família têm opiniões diferentes sobre a mesma questão", disse Klimov, vice-líder da comissão de assuntos internacionais do Parlamento. "Até gêmeos têm ideias diferentes em alguns assuntos. Assim, não é nada estranho que essas pessoas abordem os fatos de modo diferente". No entanto, a questão da Líbia não parece ter se esvanecido, já que ainda predomina um profundo ressentimento populista desde o bombardeio da Sérvia pelas forças da Otan em 1999.

Na quinta-feira, o ex-embaixador na Líbia, chamado de volta à Rússia pelo presidente Medvedev no início deste mês, falou à jornalistas russos. Ele negou notícias de que chamou Medvedev de "traidor", mas admitiu ter enviado um telegrama alertando que as relações comerciais da Rússia com a Líbia em perigo "podiam ser consideradas uma traição dos interesses da Rússia". Ele apoiou a declaração de Putin, que comparou a resolução das Nações Unidas que autorizou os ataques aéreos a "um apelo medieval a uma cruzada".

"O que eu gosto, em particular, em Vladimir Vladimirovich é como ele define as coisas de maneira clara, sucinta e enérgica", disse o embaixador Vladimir V. Chamov, numa entrevista em Moscou para o popular jornal Komsomolets. "Acho que, neste caso, ele não está longe da verdade."

Segundo Kalashnikov, o parlamentar comunista, a questão líbia trouxe à superfície uma divergência fundamental entre Putin e Medvedev: embora ambos compartilhem a ideia de uma integração econômica com o Ocidente, Putin é bem mais desconfiado das intenções geopolíticas ocidentais.

Para o parlamentar, seus colegas de partido estão muito cautelosos nesses assuntos pois não sabem quem estará governando a Rússia no ano que vem e isso está provocando neles um "estresse pessoal".

"Quanto mais tempo continuar essa incerteza, mais difícil será para eles trabalharem", disse Kalashnikov. "De um lado as pessoas esperam por algum sinal - um sinal claro e visível - de quem será o candidato. De outro lado, há colisões em assuntos como a Líbia. O que leva a uma tensão no plano pessoal. Como podem reagir?"

Na verdade, muita gente da elite da Rússia está suspensa entre os dois homens, esperando "não ser o primeiro a se imiscuir nessa briga", afirmou Konstantin V. Remchukov, editor do jornal Nezavisimaya Gazeta.

A espera está afetando os próprios líderes, como também autoridades e empresários que fazem parte dos seus círculos restritos, disse ele.

"Estão todos à beira de um colapso", disse Remchukov. "Eles se queixam, dizendo que "também preciso saber onde vou estar daqui um ano ou dois. Preciso saber se continuarei chefiando este monopólio"." Segundo o jornalista, "as pessoas próximas de Medvedev e Putin também precisam de mais clareza". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE DO "NEW YORK

TIMES" EM MOSCOU

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