AP Photo/Dolores Ochoa
AP Photo/Dolores Ochoa

Divergências internas ameaçam governo de Moreno no Equador

Aliados do ex-presidente Rafael Correa acusam o atual mandatário, Lenín Moreno, de contrariar totalmente os princípios do partido, se aliar a um antigo líder opositor, entregar a imprensa estatal para representantes da mídia privada e preparar 'pacotaço' econômico

O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2017 | 12h50

QUITO - Depois de 10 anos no governo do Equador, a esquerda enfrenta sua pior crise interna após as duras críticas feitas pelo vice-presidente, Jorge Glas, acusado de corrupção por opositores no escândalo envolvendo a Odebrecht, ao atual mandatário, Lenín Moreno.

O vice publicou na quarta-feira uma carta contra Moreno na qual se uniu ao ex-presidente Rafael Correa na crescente divisão dentro do governista Alianza País (AP). Glas, que também foi vice-presidente de Correa entre 2013 e 2017, acusou o presidente de "contrariar totalmente" os princípios do partido.

Entre outras coisas, ele reprovou uma suposta aliança de Moreno ao grupo do líder opositor Abdalá Bucaram e o acusou de entregar o controle dos veículos estatais a "representantes da mídia", além de manipular "de maneira perversa os números da economia" durante a administração de Correa.

Em resposta, Moreno usou as redes sociais do AP para, sem mencionar o nome de seu vice nem suas acusações, convocar a militância do partido a se unir e "revolucionar a revolução".

"Não vamos ceder em nosso compromisso de lutar pela ética na política, em nosso combate frontal contra a corrupção, respeitando a independência de funções e dos devidos processos", disse Moreno.

Na carta de quatro páginas, Glas disse que o presidente está "acusando membros do governo anterior de corruptos". "Por acaso está preparando o terreno para perseguir seus antigos companheiros visando saciar a sede de vingança de seus novos amigos?", questionou.

Saída digna

O vice equatoriano, responsável durante anos por setores estratégicos do país, é um dos políticos mais criticados pela oposição, que o acusa de envolvimento no caso Odebrecht.

O analista econômico Alberto Acosta afirmou ser "provável que Glass tenha algumas dúvidas de como todas estas acusações (contra ele) terminarão e queira de alguma forma de forçar uma justificativa para uma saída digna" da atual administração.

"Não me parece que este episódio tenha criado por enquanto uma crise de governo, apesar de não podermos descartar que Moreno reaja de forma mais firme. O que já aconteceu é um aprofundamento na divisão interna do governismo entre os morenistas e o correístas, com os aliados do ex-presidente atuando como oposição", explicou.

Desde que Moreno assumiu o poder em maio, Correa tem se mostrado muito crítico com a forma de governar do atual presidente e com as reuniões que ele manteve com adversários e representantes de setores tradicionalmente opositores ao Alianza País, incluindo a imprensa e os indígenas.

O ex-presidente qualificou de "entreguismo" algumas ações de Moreno, que governa com um estilo menos conflituoso e midiático. Nesta quinta, Correa voltou a causar desentendimento no partido ao sugerir pelo Twitter que existe um plano para destituir Glas.

O ex-mandatário, radicado temporariamente na Bélgica, chegou até mesmo a cogitar nos últimos dias a possibilidade de criar um novo partido para proteger as conquistas da chamada revolução cidadã em razão do distanciamento com Moreno.

O último confronto entre os dois ocorreu na semana passada, quando o presidente divulgou em rede nacional dados "verídicos, precisos e de acesso público" sobre a "crítica" situação econômica no Equador provocada por decisões "que não foram devidamente avaliadas" por seu antecessor.

Correa reagiu afirmando que Moreno está justificando "um pacotaço" econômico "ordenado pela oposição", acusação ecoada por Glas. "Sei o que vou enfrentar por denunciar de maneira frontal o que está acontecendo e a possível aplicação de um pacotaço (econômico) contra meu povo", escreveu o vice-presidente. / AFP

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