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Dívida venezuelana

Quando o regime cair, a China e a Rússia já terão loteado o petróleo venezuelano

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2018 | 05h00

Em todo canto do mundo, a China tem empregado sua imensa reserva em dólares para financiar desafetos dos Estados Unidos: no Leste Asiático, a Coreia do Norte; no Oriente Médio, o Irã; na América do Sul, a Venezuela; na Eurásia, a Rússia

Repare que esses quatro países são fornecedores de energia, da qual a China é uma grande importadora. Os chineses sustentam o regime da Coreia do Norte importando quase todo o seu carvão. A Rússia é a maior fornecedora de petróleo para a China, e em julho começou a lhe fornecer também gás. 

A China é o principal destino do petróleo iraniano, e essa dependência tende a aumentar, com a ruptura do acordo nuclear e a retomada das sanções por parte dos EUA. O mercado americano ainda é o maior comprador do petróleo venezuelano, com 500 mil barris por dia. A China vem em segundo, com 435 mil. As importações americanas estão caindo e as chinesas, aumentando.

Os chineses têm sido os principais financiadores da dívida venezuelana. A Venezuela deve US$ 50 bilhões à China, que começou a cobrar essa dívida, parando assim de pagar pelo petróleo, fonte de US$ 12,7 bilhões ao ano, considerando o barril a US$ 80.

A China representa, ao lado da Rússia (que anunciou investimentos de US$ 15 bilhões), a única fonte possível atualmente de recursos para a obsoleta indústria venezuelana do petróleo. O presidente Nicolás Maduro esteve em Pequim nos últimos dias, procurando engrossar esse cordão umbilical.

A Venezuela vendeu mais 9,9% para os chineses de participação na Sinovensa, joint venture entre os dois países. A China já possuía 40% na empresa. Os chineses abrirão 300 poços de petróleo no bloco 6 do campo de Ayacucho. E investirão US$ 184 milhões em outra joint venture, a Petrozumano.

Em julho, o governo venezuelano havia anunciado que o Banco de Desenvolvimento da China emprestaria US$ 250 milhões para aumentar a produção de petróleo do país, sem informar detalhes.

O presidente Xi Jinping garantiu a Maduro que a China “vai apoiar os esforços do governo venezuelano de buscar estabilidade e desenvolvimento”. Segundo o chanceler chinês, Wang Yi, os dois países “vão elevar a quantidade e qualidade da cooperação”.

Os investimentos na indústria do petróleo venezuelano são cruciais para a sobrevida do regime chavista. Quando Hugo Chávez chegou ao poder, em fevereiro de 1999, a Venezuela produzia 3,1 milhões de barris de petróleo por dia. Maduro assumiu em abril de 2013 com a produção a 2,3 milhões. Agora, já está em 1,2 milhão. 

A queda é consequência de três fatores. O primeiro é a fuga de cérebros do país, o que inclui os engenheiros e gerentes da PDVSA que haviam restado dos expurgos realizados por Chávez depois da tentativa de golpe e paralisação da estatal em 2002.

Há muito que a empresa não recebe investimentos: nos tempos do barril caro, suas receitas eram desviadas pelas remessas de petróleo para países aliados do regime; nos últimos anos, por absoluta falta de recursos.

O patrimônio da PDVSA tem sido dilapidado por ações bilionárias na Justiça internacional, por parte de empresas de petróleo que exploravam campos adquiridos em leilões, confiscados pela nacionalização em massa promovida por Chávez em 2007. 

Tribunais nos EUA e na Holanda determinaram o confisco de terminais de exportação no Caribe e de carregamentos de petróleo da Citgo, subsidiária da PDVSA. Isso reduziu ainda mais a receita da estatal. Para liberar os ativos, a PDVSA firmou um acordo com a americana ConocoPhillips, e desembolsou US$ 2 bilhões. O recurso veio da suspensão do pagamento de títulos da dívida venezuelana. 

O cobertor está bastante curto. Quando o regime cair, a China e a Rússia já terão loteado o petróleo venezuelano. E farão o que for necessário para garantir que o próximo governo honre esses contratos.

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