Joe Pugliese/AP
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Dividida entre os EUA e o Reino Unido, Meghan se reinventa ao lado de Harry

Nove meses após entrevista para Oprah Winfrey, Markle é uma mistura formidável de celebridade de alto nível, empresária, investidora e ativista social

Mark Landler, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2021 | 05h00

LONDRES - Quando o príncipe Harry e sua esposa, Meghan Markle, saíram na semana passada de um baile de gala para veteranos na cidade de Nova York, o príncipe radiante e adornado com fitas declarou que estava "vivendo o sonho americano". Isso pode ser ainda mais verdadeiro no caso de Meghan, que se reinventou como filantropa, empreendedora e ativista desde que deixou o Reino Unido no ano passado.

Mesmo quando estavam conquistando Manhattan, no entanto, Meghan foi ofuscada pela antiga vida do casal em Londres. Ela foi obrigada a se desculpar por declarações errôneas que fez em um processo contra um tabloide britânico, The Mail on Sunday, por violar sua privacidade ao publicar uma carta que havia enviado a seu pai.

Meghan disse que era um caso de falha de memória. Mas os tabloides, que estão em guerra com o casal desde antes de sua partida do Reino Unido para o sul da Califórnia, ironizaram a admissão. "Little Miss Forgetful" (“Garota Esquecida”), disse o The Sun, acima de uma desagradável caricatura de Meghan, extraída de "Little Miss", uma série de livros infantis ingleses.

Raramente o contraste entre a vida presente e passada de Meghan foi tão forte. Nove meses depois que ela e Harry deram uma entrevista para Oprah Winfrey na qual Meghan acusou a família real de um tratamento cruel e racista, ela ressurgiu nos Estados Unidos como uma mistura formidável de celebridade de alto nível, empresária, investidora e ativista social. Alguns especulam sobre um futuro político.

No Reino Unido, entretanto, Meghan continua sendo uma figura polarizadora. Ela é admirada por alguns, principalmente pelos jovens, por ter trazido novos ares para a mofada Casa de Windsor, mas é insultada por muitos outros, e não menos pelos tabloides, que citam sua declaração incorreta como a evidência de um padrão mais amplo de duplicidade e comportamento manipulador.

 “A maioria das pessoas está farta deles” disse Penny Junor, um historiador real. “Eles disseram que queriam privacidade, mas nunca pararam de buscar atenção. E agora, todos esses meses depois, descobrimos que ela mentiu para o tribunal ou não conseguiu se lembrar.”

Nada disso importa muito nos Estados Unidos, Junor rapidamente reconheceu. No mínimo, as imagens divididas da semana passada justificaram a decisão do casal de deixar o reino para trás.

Harry e Meghan conseguiram controlar sua imagem com muito mais eficácia nos Estados Unidos do que na mídia britânica dominada pelos tabloides. Ela se colocou no debate político americano de uma forma que seria inconcebível no Reino Unido, onde membros da família real evitam escrupulosamente a política.

“Nós toleramos o sucesso neste país, mas não o celebramos”, disse Junor. “Na América, eles glorificam o sucesso.”

Meghan, também conhecida como a Duquesa de Sussex, comentou essa diferença em uma entrevista ao The New York Times na terça-feira, embora tenha colocado a questão no contexto de preconceito de gênero ao invés do contexto cultural. Falando com Andrew Ross Sorkin no DealBook Online Summit, Meghan disse que ambição era uma “palavra-gatilho” quando aplicada às mulheres.

“Como permitimos isso culturalmente?” Meghan disse. “Não há nada de errado em falar sobre o sucesso de uma mulher, ou sua ambição, ou suas proezas financeiras.”

Desde que se estabeleceram em uma ampla casa de estilo mediterrâneo em Montecito, na Califórnia, Meghan e Harry assinaram lucrativos acordos de programação com a Netflix e o Spotify; abriram a Archewell, uma organização filantrópica e de advocacy; e se tornaram sócios de uma empresa gestora de ativos, a Ethic, que investe em empresas consideradas socialmente responsáveis.

A duquesa não abandonou totalmente o Reino Unido. Durante a entrevista, ela usou um broche de papoula vermelho, um costume britânico durante o outono que homenageia os soldados mortos. Questionada sobre seu caso legal, Meghan evitou detalhes, exceto para observar que ela havia ganhado uma decisão contra o Mail.

“Estou apenas defendendo o que é certo”, ela disse.

O problema é que Meghan admitiu que errou ao dizer ao tribunal que não havia cooperado com os autores de um livro lisonjeiro sobre o casal. Seu ex-secretário de comunicações, Jason Knauf, entregou e-mails mostrando que ela lhe deu informações para que ele passasse aos autores, Omid Scobie e Carolyn Durand, incluindo detalhes sobre o rompimento de seu relacionamento com seu pai, Thomas Markle.

“Peço desculpas ao tribunal pelo fato de não ter me lembrado dessas trocas na época”, disse Meghan em um depoimento como testemunha. “Não tive absolutamente nenhum desejo ou intenção de enganar o réu ou o tribunal”.

Um porta-voz da duquesa não quis comentar mais.

Tudo isso é um tanto periférico em um caso que questiona se o The Mail on Sunday invadiu sua privacidade ao publicar a carta particular para seu pai. O The Mail, que obteve a carta, argumenta que Meghan, como figura pública, não deveria esperar que  ela permanecesse confidencial.

Não ficou claro como sua admissão afetaria o caso como um todo: a editora do The Mail, Associated Newspapers, está apelando depois que Meghan ganhou um julgamento sumário em fevereiro.

Ainda assim, as revelações pintam o retrato de uma duquesa que parecia tudo menos ingênua sobre sua imagem pública nos meses turbulentos após seu casamento com Harry, em maio de 2018.

Knauf disse que a duquesa enviou a ele um rascunho da carta ao pai para ser revisada, com a anotação: "obviamente rascunhei tudo com o entendimento de que poderia vazar, então fui meticulosa na escolha das palavras".

Meghan, ele disse, até perguntou se chamar Markle de “papai” seria uma estratégia inteligente de relações públicas.

“Como só o chamei de papai”, ela escreveu, “pode fazer sentido começar dessa forma (apesar de ele não ser muito paternal), e na infelicidade de vazar, isso apelaria à emoção.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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