Evan Vucci/AP
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Trump nega racismo na polícia e diz que protestos são atos de terrorismo

Em viagem a Kenosha,onde a polícia disparou sete vezes contra um negro pelas costas, presidente critica manifestações contra violência policial e se coloca como o único capaz de acabar com os distúrbios sociais nas grandes cidades

Beatriz Bulla / Enviada a Kenosha, EUA, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2020 | 15h27
Atualizado 01 de setembro de 2020 | 21h40

Em uma controvertida visita à cidade de Kenosha, no Estado de Wisconsin, Donald Trump garantiu nesta terça-feira, 1º, que não há racismo sistêmico na polícia americana e disse que os protestos contra a violência policial são atos de “terrorismo doméstico”. Ao se colocar no epicentro da onda de manifestações sociais no país, Trump tentou novamente vender a imagem de “candidato da lei e da ordem”, reforçando sua estratégia eleitoral.

A viagem de Trump mobilizou a cidade de 100 mil habitantes no sul de Wisconsin. Tropas da Guarda Nacional bloquearam as ruas por onde ele passou. Apoiadores do presidente ficaram posicionados para acenar para o carro presidencial, com bandeiras dos EUA e sem máscaras de proteção.

No centro da cidade, houve tensão e confronto entre manifestantes contra e a favor de Trump, enquanto a esquina onde Jacob Blake foi baleado virou uma espécie de festival antirracismo. 

Há dez dias, Blake levou sete tiros nas costas, à queima-roupa, de um policial branco – ele está internado sem movimentos nas pernas. Além do novo episódio de violência contra um negro, Kenosha simboliza a escalada de tensão entre uma sociedade rachada. Na semana passada, um jovem de 17 anos, ligado a organizações de extrema direita, usou um fuzil AR-15 para matar dois manifestantes na cidade. Trump não criticou o atirador e comparou policiais que já dispararam contra cidadãos a jogadores de golfe que ficam nervosos diante de uma jogada fácil.

A agenda do presidente incluiu visita a regiões destruídas pelos protestos da semana passada, fotos diante de escombros e agentes da polícia local. “Há anarquistas, saqueadores e desordeiros. Há gente de todos os tipos”, disse o presidente, que criticou o prefeito de Kenosha e o governador de Wisconsin – ambos democratas. 

Trump desembarcou na região mesmo após o pedido das autoridades locais para que ele adiasse a viagem sob medo de que a presença do republicano gerasse uma onda de confrontos e protestos violentos.

 

Na viagem, Trump intensificou os ataques aos manifestantes e se afastou da pauta antirracismo ao não procurar a família de Blake, que vem pedindo que as manifestações sejam realizadas de maneira pacífica. “Esses não são atos pacíficos, são atos de terrorismo doméstico”, disse o presidente. 

Hoje, Justin Blake, tio de Jacob, foi para a esquina onde o sobrinho foi baleado e organizou um ato com música, hambúrgueres e coleta de mantimentos para a vizinhança. Ele foi um dos responsáveis por pedir aos manifestantes que não realizassem protestos durante a visita de Trump.

No local onde Jacob foi baleado, centenas de pessoas e voluntários se reuniram para coletar assinaturas e registrar eleitores. No asfalto, os nomes de negros mortos pela polícia foram escritos com giz. 

No centro da cidade, manifestantes tentaram expulsar dois homens que, segundo o grupo, estavam armados. “Armas não são necessárias, eu disse isso a eles. Não precisamos de mais divisão”, contou Lamar Whitfield, de 44 anos, que viajou de Chicago a Kenosha para os eventos contra Trump.

A estratégia de Trump tem apelo junto a sua base fiel de eleitores. “Eu não acho que há racismo sistêmico no país. Meus amigos negros também não acham que há. Os democratas é que querem nos separar”, afirmou Danell Vincenti, branca, de 53 anos, que usava um chapéu em formato de queijo na cabeça – produto típico da região. A maioria dos manifestantes pró-Trump não usava máscaras. “Os esquerdistas tentam criar uma histeria sobre o vírus”, afirma Mary Russel, também branca e moradora de Illinois. As duas foram para Kenosha apoiar o presidente.

Ao saber que o Estadão é um jornal brasileiro, Mary afirmou: “Seu presidente é o Bolsonaro, certo? Que gosta do Trump. Gostamos dele!”.

A poucos metros dali, a professora Colleen Connolly, de 55 anos, usava uma máscara com a palavra “vote” e um cartaz com o número de mortes por covid-19 no país: 185 mil. “Trump está inflamando a violência racial como uma distração por sua incompetência com o coronavírus”, afirmou a professora. 

O governador de Wisconsin, o democrata Tony Evers, pediu que Trump cancelasse a visita, especialmente depois do confronto de manifestantes do dois lados em Portland causar uma morte no fim de semana. Wisconsin é um Estado-chave na eleição americana. Em 2016, Trump ganhou de Hillary Clinton por uma margem apertada de 23 mil votos e levou os 10 votos a que o Estado tem direito no Colégio Eleitoral. O Estado não votava em um republicano desde Ronald Reagan, em 1984. Até o início do ano, ele aparecia na frente de Joe Biden nas pesquisas de intenção de voto, mas desde a pandemia de coronavírus perdeu apoio e agora está mais de 6 pontos porcentuais atrás do democrata.

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Críticos do presidente têm pedido que ele adote uma mensagem de pacificação, para acalmar a agitação social nas grandes cidades. Mas, em plena campanha à reeleição, ele adotou o caminho oposto. Durante convenção, na semana passada, os republicanos disseram que um governo democrata significaria caos, anarquia, a “destruição” dos subúrbios e o fim do direito ao porte de armas. 

 “Seu voto decidirá se protegemos os americanos que cumprem a lei ou se damos rédea solta aos violentos anarquistas, agitadores e criminosos que ameaçam nossos cidadãos”, disse Trump na convenção.

A campanha democrata, por sua vez, tem abraçado parte da pauta dos manifestantes e defendido a necessidade de abordar o racismo sistêmico na sociedade americana e nas polícias. Os republicanos negam que os EUA sejam um país racista. 

Biden não apoia, no entanto, uma das reivindicações dos manifestantes pela diminuição do financiamento da polícia. Depois dos ataques durante a convenção republicana, Biden e sua candidata a vice, Kamala Harris, têm condenado protestos violentos, em uma tentativa de responder aos eleitores as acusações feitas por Trump.

Ontem, Biden pediu que o presidente condene violência "dos dois lados". Mas em uma entrevista à Fox News antes de embarcar para Kenosha, Trump novamente minimizou as situações de violência policial ao comparar os policiais que atiram em cidadãos com um "engasgo" de um jogador de golfe sob pressão.

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De uma maneira vaga, o presidente levantou uma teoria da conspiração ao dizer que "sombras escuras" controlam Joe Biden e as pessoas que estão nas ruas em protesto. “Alguém entrou em um avião de uma certa cidade neste fim de semana. E o avião estava quase totalmente lotado de bandidos, usando esses uniformes escuros, uniformes pretos, com equipamentos e isso e aquilo", disse Trump.

O tema da violência policial contra negros têm dominado atenções no país desde o fim de maio,  quando protestos aconteceram em quase 200 cidades no país após o assassinato de George Floyd, em Mineápolis. 

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