Enrique Marcarian/Reuters-25/5/2010
Enrique Marcarian/Reuters-25/5/2010

Dividida, oposição aos Kirchners patina

A um ano da escolha do novo presidente, opositores do casal tentam superar divergências e repetir triunfo da eleição parlamentar de 2009

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

Um ano atrás a oposição argentina celebrava a arrasadora vitória contra o governo da presidente Cristina Kirchner nas eleições parlamentares. Juntos, os vários setores da oposição tinham assegurado 70% dos votos, enquanto o governo - apesar do abusivo uso da máquina estatal - não passou dos 30%.

Mas, 12 meses após a vitória - e a apenas um ano das eleições presidenciais -, a oposição surge dividida e incapaz de definir uma frente comum contra o governo. Perdeu a oportunidade de mobilizar os argentinos contra a série de atropelos dos Kirchners contra a mídia, as empresas privadas e os produtores rurais. Enquanto 13 candidatos opositores ambicionam o lugar de Cristina, o casal Kirchner dá mostras de que fez da derrota do ano passado mais uma motivação para buscar um novo mandato.

"A oposição não tem uma agenda definida, enquanto o governo não vacila", disse ao Estado o analista político Carlos Fara, da consultoria Fara e Associados. Mesmo a intervenção cardíaca do ex-presidente Néstor Kirchner, no fim de semana, não intimidou o casal presidencial que, para mostrar força, não cancelou um comício em pleno centro portenho, apesar da convalescença de Kirchner. Cristina discursou com seu marido, Néstor, ao lado, sentado e calado o tempo todo.

Segundo Mariel Fornoni, da consultoria de opinião pública Management & Fit, o governo ainda não definiu quem será o candidato: "As pessoas temem depositar o voto em alguém como Kirchner, que sofreu duas operações do coração em sete meses". Fornoni destacou que "possivelmente um deles seja candidato a presidente e o outro seja candidato ao governo da Província de Buenos Aires, que abriga 40% do eleitorado argentino".

Sem rumo. "A derrota do governo no ano passado não foi feita por uma oposição, mas por várias oposições, que já estavam fragmentadas. Nas primeiras sessões do novo Parlamento vimos que existia quase nula coordenação da oposição. Isso continuou aumentando, favorecendo o governo", explicou Fornoni.

Fara considera que "não haverá uma candidatura opositora de de consenso e, possivelmente, a oposição apresentará simultaneamente três ou quatro candidatos". Segundo ele, "a própria opinião pública está fragmentada". "Uma parte substancial da população não possui candidato nenhum."

Até agora, o vice-presidente Julio Cobos é, segundo as pesquisas, é a principal figura para enfrentar Kirchner nas urnas. Cobos, de centro, afastou-se do casal Kirchner em 2008, durante o conflito entre o governo e o setor ruralista. Apesar de ter o prestígio d a população, o vice não consegue a adesão dos partidos da oposição, que não perdoam seu alinhamento com o casal presidencial entre 2007 e 2008.

Os peronistas dissidentes - também chamados "federais" - tentaram mostrar unidade. O grupo é formado pelos setores do peronismo de centro-direita que se afastaram dos Kirchners. Uma das principais figuras é o ex-piloto de Fórmula 1, o senador Carlos Reutemann, considerada figura de consenso. No entanto, Reutemann, conhecido por seu temperamento reservado, ainda aguarda uma definição do cenário político.

Nos setores de centro-esquerda também existem "vacilos". É o caso da deputada Elisa Carrió, líder da Coalizão Cívica, segunda colocada nas eleições presidenciais de 2007, com 22% dos votos. No entanto, a deputada afirmou que "ainda não é época para lançar uma candidatura presidencial".

O ex-presidente e atual senador Carlos Menem afirmou que nunca a oposição esteve tão dividida e fraca. "Espero que oposição se fortaleça em breve, caso contrário corremos o risco de continuar com o mesmo governo", disse, anunciando que também pretende voltar à Casa Rosada.

Outro ex-presidente, Fernando De la Rúa (1999-2001), que governou o país com uma coalizão de seu partido, a União Cívica Radical (UCR), declarou que "a oposição precisa se organizar melhor". Ele considera que nos próximos meses "aparecerão as lideranças" para enfrentar os Kirchners. "Em 1983, eu disputava a candidatura contra Raúl Alfonsín, mas percebi que ele tinha maiores chances e desisti (Alfonsín foi o candidato da UCR e venceu as eleições). Pode ser que esse comportamento de generosidade se repita nos próximos meses". De la Rúa considera que "o povo votará na oposição, pois deseja uma mudança".

Governo fraco. Apesar das divisões da oposição e da iniciativa do governo, os Kirchners não venceriam as eleições hoje. Segundo Fornoni, "Kirchner ficaria com o primeiro lugar no primeiro turno. Mas, nos diversos cenários de segundo turno, ele perde em todos, pois a imagem negativa do ex-presidente é muito forte para mais de 50% dos eleitores. Estas pessoas votariam em qualquer candidato da oposição só para derrotar Néstor ou Cristina."

Para o sociólogo Jorge Giacobbe, se por um lado a oposição está dividida, o governo também sofre do mesmo problema: "Néstor e Cristina estiveram nas últimas três semanas trocando farpas pela mídia. Ele disse que o candidato era ele, e pediu que esquecessem de Cristina. Mas, os ministros preferem que a candidata seja ela. A recente operação de Kirchner será certamente usada contra ele pelos setores que preferem que Cristina continue a ocupar a Casa Rosada por mais um mandato".

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