Divididas, Mães da Praça de Mayo comemoram 30 anos

Há 30 anos, no sábado dia 30 de abril de 1977, um pequeno grupo de 14 mulheres - quase todas pacatas donas de casa com cerca de 50 anos - reuniram-se na Praça de Mayo, na frente da Casa Rosada, para pedir informações sobre o paradeiro de seus filhos, seqüestrados pela ditadura militar (1976-83). Com o passar do tempo - apesar do assassinato de várias integrantes - o número de mães aumentou. Enquanto eram chamadas de "loucas" pelo regime militar, tornavam-se conhecidas no exterior como as "Mães da Praça de Maio", a principal resistência organizada à ditadura. De lá para cá, as Mães realizaram 1.561 jornadas caminhando ao redor da Pirâmide de maio, um obelisco que celebra a Revolução de maio de 1810. Agora, elas têm em média 80 anos. No entanto, não se cansam de estar ali todas as quintas-feiras - pontualmente às 15h30 - para saber de seus filhos mortos e da prisão dos militares responsáveis pelo seqüestro, tortura e assassinato de 30 mil civis durante a ditadura. Seu símbolo são lenços brancos na cabeça. Nas primeiras marchas, de forma simbólica, os lenços eram fraldas de pano. Desde a volta da democracia, as Mães obtiveram provas e depoimentos com os quais conseguiram levar centenas de ex-integrantes da ditadura à prisão. Mas, com o passar dos anos, as fissuras entre elas foram crescendo. As Mães dividiram-se. E os grupos existentes são rivais e irreconciliáveis. A divisão ficou clara nesta segunda-feira, quando as Mães comemoraram seus 30 anos de existência separadamente. A Associação das Mães da Praça de Mayo organizou um festival de música latina que reuniu milhares de pessoas em Buenos Aires. Horas antes, as Mães da Praça de Mayo-Linha Fundadora, realizaram uma vigília na praça. A Associação das Mães é liderada por Hebe de Bonafini, conhecida por não ter papas na língua e por ter apoiado os grupos terroristas IRA e ETA. Com freqüência, ela reúne-se com o líder cubano Fidel Castro e o venezuelano Hugo Chávez. Acusada de ter um estilo "totalitário", Hebe também criou a Universidade das Mães, onde há cursos de economia e cinema com enfoque marxista. O grupo conta ainda com uma rádio e um café. Com o argumento de que "o sangue de nossos filhos não tem preço", eles rejeitam a indenização de US$ 200 mil que o governo argentino concede desde 1990 às famílias do desaparecidos. A associação não se interessa em encontrar os corpos do desaparecidos. O grupo Linha Fundadora foi formado em 1986 pelas dissidentes das Mães lideradas por Bonafini. Suas integrantes concordam com a indenização às famílias e participam ativamente dos processos contra os ex-torturadores. Elas também atuam para identificar cemitérios clandestinos onde estão enterrados os desaparecidos. As Avós da Praça de Maio foram as responsáveis pela procura dos filhos dos desaparecidos (ou seja, seus netos), tarefa deixada de lado pelas Mães. "Nos une uma história comum, nos diferenciamos na metodologia", diz a líder, Estela de Carloto. Mais de 500 bebês foram seqüestrados junto a seus pais ou nasceram no cativeiro. Destes, 87 foram devolvidos a suas famílias biológicas. O grupo criou o Banco Nacional de Dados Genéticos que ajuda na identificação dos desaparecidos. A organização H.I.J.O.S. é formada pelos filhos dos desaparecidos. Com o lema "se não há Justiça, há escracho", eles fazem um tipo de manifestação conhecida como "escrache", que consiste em descobrir o endereço do ex-integrante da ditadura e protestar na frente da residência para que os vizinhos saibam quem mora ali. Todos os grupos têm boa relação com o governo de Néstor Kirchner, que desde 2003 incentiva o julgamento dos ex-integrantes da ditadura.

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