Dividido, Partido Baath enfrenta mais renúncias

Os sinais de divisão nas Forças Armadas e no Partido Baath, que governa a Síria desde 1963, tornaram-se ainda mais evidentes ontem. Mais de 200 integrantes do Baath, que sempre se mostrou coeso, renunciaram em Deraa, epicentro da revolta, no sul do país. Um vídeo feito com um celular distribuído para as emissoras de TV mostrava ontem soldados sírios feridos caídos no chão. Segundo testemunhas, eles teriam sido alvejados em Deraa pelos próprios companheiros, por se recusarem a disparar contra a população.

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2011 | 00h00

Dois moradores em Deraa disseram à Associated Press que pelo menos cinco oficiais do Exército passaram para o lado dos manifestantes, enquanto que soldados recrutados pelo serviço militar obrigatório estariam recusando ordens de deter civis nos postos de controle, permitindo que as pessoas passem para ir buscar alimentos. Há relatos ainda de confrontos entre tropas das forças regulares, que não acatam as ordens de repressão, e unidades de elite sob o comando do irmão do ditador Bashar Assad, Maher. O governo e o Exército negam que haja divisões.

Na quarta-feira, 30 integrantes do Baath já haviam renunciado em Baniyas, cidade costeira no oeste. Nos dois casos, os dissidentes denunciaram em cartas o uso da força contra civis.

A cada dia os protestos e a violenta repressão se espalham pelo país. Testemunhas citadas pela Associated Press afirmaram que seis tanques entraram em Latakia, reduto de Assad no norte. As forças de segurança abriram fogo e pelo menos quatro manifestantes ficaram feridos. Segundo ativistas de direitos humanos, mais de 450 pessoas morreram desde o início dos confrontos, em 18 de março; dessas, 120 no fim de semana. Para hoje é esperada a intensificação dos confrontos, com manifestantes planejando um "dia de fúria" após as orações de sexta-feira, dia de descanso semanal muçulmano.

O Conselho de Segurança da ONU não consegue chegar a um acordo sobre medidas contra o regime sírio. Num ato sem consequências práticas, mas de grande valor simbólico, a chancelaria britânica retirou o convite para o embaixador da Síria em Londres, Sami Khiyami, assistir ao casamento do príncipe William. O Foreign Office considerou que a presença dele seria "inaceitável", e acrescentou que o Palácio de Buckingham "compartilha dessa visão".

A decisão parece ter pegado o embaixador de surpresa. "Achei um pouco constrangedor, mas não a considero uma questão que vá prejudicar as relações e as discussões com o governo britânico", declarou ele. "Na realidade não entendo (a decisão), mas entendo a influência da mídia nas decisões do governo."

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