Divididos, alemães escolhem hoje novo governo

Há pouco mais de um mês, a eleição alemã de hoje parecia ser uma batalha perdida para o atual governo da coalizão social-democrata e verde do chanceler Gerhard Schroeder. Seu principal adversário, o governador democrata-cristão da Baviera, Edmund Stoiber - explorando os preocupantes indicadores econômicos do atual mandato federal -, tinha 7 pontos porcentuais de vantagem sobre ele no começo de agosto, uma diferença considerável para os padrões alemães. Mas, no meio do mês, choveu muito na Alemanha, os EUA radicalizaram sua retórica de guerra contra Iraque, os alemães experimentaram pela primeira vez debates eleitorais pela TV e a estrela política de Schroeder voltou a brilhar. Hoje, os partidos de Schroeder, o SPD, e o de Stoiber, a coligação CDU/CSU, chegam às eleições para o Bundestag (Parlamento) rigorosamente empatados nas pesquisas de opinião. A aposta de Schroeder na posição de se opor com veemência a qualquer intervenção militar para remover Saddam Hussein do poder em Bagdá poderia causar danos às relações com Washington, mas mostrou-se acertada do ponto de vista eleitoral. Pelas ruas que circundam a Wittembergplatz, a praça do lado oriental de Berlim nas proximidades do magazine KaDeWe - no qual antes da queda do muro, em 1989, só os estrangeiros podiam entrar -, os alemães não consideram que o risco de um ataque ao Iraque se tenha atenuado com as gestões diplomáticas dos últimos dias, como talvez esperassem os assessores de Stoiber. Assim, o trauma das guerras passadas e o temor das futuras continuam jogando a favor do atual chanceler. Stoiber, que preferia uma campanha baseada no debate sobre a criação de emprego e as restrições às leis de imigração, não se mostrou tão inflexível quanto seu adversário na questão do impasse entre EUA e Iraque. Mesmo assim, ainda tem crédito político por causa da boa atuação no governo da Baviera, o Estado mais próspero da federação, onde o índice de desemprego está abaixo dos quase 10% da média nacional. Empate técnicoAs últimas pesquisas mostram tanto o SPD quanto a CDU/CSU oscilando na faixa entre 35% e 38%. A Aliança 90/Os Verdes, sócios da coalizão governista de Schroeder, e o liberal FDP - que tenderia a unir-se à CDU/CSU - também estão empatados entre 7% e 9%. Por enquanto, o único dado concreto que se depreende das pesquisas é que nenhum partido governará a Alemanha sem formar uma coalizão. As chuvas, as mais pesadas em mais de cem anos, que arrasaram grande parte de várias cidades alemãs, marcaram a virada da campanha de Schroeder. O chanceler suspendeu as atividades eleitorais para assumir pessoalmente a gestão da situação de emergência. Sua atuação na crise, visitando as cidades e distribuindo verbas para a reconstrução, foi aprovada pela população, numa demonstração de seu talento para o vídeo, que se repetiria dias depois, durante os dois debates pela TV com Stoiber. "Admito que Schroeder atuou bem nas inundações, mas o que houve mesmo foi um show de mídia", disse ao Estado Michael Schrader, presidente do diretório estadual do PDS, o sucessor do partido comunista da ex-Alemanha Oriental, em Dresden - onde as águas do Rio Elba chegaram a subir mais de 9 metros. Além de não ter a mesma intimidade com as câmeras, Stoiber tem contra si a rivalidade regional entre os bávaros e os prussianos. A ministra da Saúde de Schroeder, Ullah Giller, não escondeu uma ponta desse preconceito durante um comício do SPD em Aachen, no oeste do país, quando respondeu a um comentário de um político da CDU/CSU, segundo o qual os bávaros "ensinariam" os prussianos a administrar a economia. "Não há nada que um bávaro possa ensinar para um prussiano", disse Ullah. A economia alemã, que ambos os candidatos prometem recuperar, mostra mesmo sinais de desgaste. Depois da queda do Muro, bilhões foram investidos nos Estados da ex-Alemanha Oriental, onde dezenas de empresas da parte ocidental se instalaram em busca de mão-de-obra mais barata e benefícios fiscais. Mas essas fábricas, principalmente montadoras de automóveis e de produtos de informática, têm um alto grau de automatização e não criaram os postos de trabalho necessários para atender a todos os desempregados da parte leste. O déficit fiscal beira os 3% do limite estabelecido na Constituição da União Européia, o sistema de previdência social está sobrecarregado e os alemães arcam com uma das mais altas cargas tributárias do planeta. O pires com a conta dos custos da reunificação acabou na mesa de trabalho de Schroeder, e Stoiber se valeu disso enquanto foi possível.

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