Divididos, árabes vão a Washington em desvantagem

Pressionado pelos EUA e sem respaldo interno, Abbas iniciará o diálogo direto sem nenhuma garantia sobre os assentamentos

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2010 | 00h00

Os líderes palestinos chegarão ao encontro de quinta-feira, nos Estados Unidos, numa posição delicada. Enfraquecida pela cisão entre Fatah e Hamas, e incapaz de arrancar de Israel qualquer compromisso prévio em relação aos assentamentos, a Autoridade Palestina de Mahmoud Abbas foi praticamente sentada à força na mesa de negociação pelos americanos. Isolado, Abbas teve de engolir os termos que lhe foram impostos.

Embora o presidente palestino tenha repetido nos últimos meses que não haveria diálogo direto "sem o fim das construções na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental", ele iniciará a barganha esta semana sem nenhuma garantia de Israel e de Washington sobre os assentamentos. A declaração do Quarteto (EUA, União Europeia, Rússia e ONU) que abriu as portas para o diálogo não menciona explicitamente a questão - como exigia Israel.

O recuo em Ramallah revoltou não apenas grupos radicais, como o Hamas e a Jihad Islâmica, que voltaram a prometer boicotar qualquer compromisso. Setores considerados moderados da Cisjordânia também criticaram a mudança de posição do presidente palestino.

Em entrevista ao Estado, Mustafá Barghouti, político independente que ficou em segundo lugar na corrida pela sucessão de Yasser Arafat, em 2005, fez duras críticas à Autoridade Palestina. "Essas negociações são um suicídio político, um erro gravíssimo. Israel não suspendeu construções em território palestino nem revelou seus termos de referência (objetivos finais da negociação). O processo - e não a paz - tornou-se o objetivo." Segundo Barghouti, a "imensa maioria" dos palestinos não quer o diálogo nessas condições e a posição de Abbas "mina a credibilidade" da Autoridade Palestina.

Há certo consenso entre palestinos de que o fracasso das negociações desta semana representaria um perigoso golpe nos grupos moderados. Para o analista Samaan Khoury, diretor do centro Peace and Development Forum, um novo impasse "provaria" que aqueles que recusam o radicalismo "perderam seu lugar na política palestina".

A explicação do recuo da Autoridade Palestina estaria fora da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Abbas viu a pressão americana para a retomada das negociações aumentar significativamente nos últimos meses. A Casa Branca enfrentará em novembro as eleições de meio de mandato e o diálogo palestino-israelense cativa o influente eleitorado judaico americano.

Pressão. Em um nova ofensiva para reverter os prejuízos, o presidente palestino enviou no domingo uma carta aos presidentes americano, Barack Obama, e russo, Dmitri Medvedev, e à chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, com uma mensagem clara: "É impossível conduzir negociações ao mesmo tempo em que há construções em assentamentos." Não houve respostas públicas ao documento.

A Autoridade Palestina teria buscado também respaldo no mundo árabe, mas não obteve resultados. Países moderados da região, como Egito e Jordânia, receberam Netanyahu nos últimos meses e deixaram de condicionar o diálogo direto ao congelamento das construções nos assentamentos.

Também por pressão americana, a Liga Árabe desistiu de boicotar as negociações cara a cara até que Israel recuasse na Cisjordânia e Jerusalém Oriental.

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