Divisão criada por Stalin é perpetuada hoje pela UE

Como na Guerra Fria, famílias são separadas pelas cercas fronteiriças

MALI SELMENCI, UCRÂNIA, O Estadao de S.Paulo

11 de abril de 2009 | 00h00

Uma divisão criada pelo ditador soviético Josef Stalin é perpetuada hoje pela União Europeia (UE). As cidades de Velké Slemence, na Eslováquia, e Mali Selmenci, na Ucrânia, viveram como se fossem uma só por séculos, mas foram separadas pela ex-União Soviética. Agora, as novas fronteiras da UE repetem o que a Cortina de Ferro gerou durante a Guerra Fria: a separação de famílias. Vídeo com imigrantes ilegais tentando entrar nas fronteiras da UE No local da fronteira, um antigo portão de madeira foi preservado. Mas, hoje quase desaparece diante das câmeras, grades e arames farpados. Ucranianos só podem entrar no lado eslovaco da cidade com um visto que custa o equivalente a metade de seus salários. No último bar antes da fronteira, Nely Borovski atende os clientes com um ar de saudosismo. No balcão, há uma foto de como era a fronteira em 2004, antes da adesão da Eslováquia à UE. "Dizem que a UE nos uniria, mas fomos traídos", afirmou. Seu pai vive no lado ucraniano da cidade e, portanto, precisa de visto para cruzar uma rua e visitar a filha. A autorização pode levar até dois meses. A nova fronteira trouxe velhas lembranças. Desde que os soviéticos cortaram os laços das duas cidades em 1947, as famílias dos dois lados buscaram soluções para poder continuar se comunicando. Primeiro, organizavam piqueniques exatamente por onde passava a fronteira. Depois, com a construção de um muro, passaram a berrar para serem ouvidos por parentes do outro lado.Os governos soviético e checo decidiram então criar punições. Um mero desejo de feliz aniversário era punido com multa equivalente a 10% do salário do infrator. A resistência das famílias continuou. Iam até o muro e, de costas para a fronteira, gritavam mensagens aos parentes que estavam do outro lado - oficialmente, estavam conversando com alguém do mesmo lado da fronteira. Com o fim do regime comunista na Ucrânia e na Eslováquia, as famílias voltaram a se ver. Mas com a adesão da Eslováquia ao Acordo de Schengen - que estipula a livre circulação de pessoas dentro da UE, mas reforça as fronteiras externas -, a passagem entre as duas cidades voltou a ser fechada .VISTOOs eslovacos, que tinham de ir até o consulado da Ucrânia mais próximo, a 200 quilômetros, ficaram isentos do visto para visitar seus parentes. Mas os ucranianos ainda precisam de visto para cruzar a fronteira - cerca de 30% da população de Mali Selmenci não tem emprego e sobrevive do dinheiro enviado da Eslováquia. "Pensávamos que essas divisões não ocorreriam mais com o fim da URSS", afirmou Lukas, um morador do lado eslovaco que estava na fila, com a sua esposa e o filho de 3 anos, para visitar a família no lado ucraniano. "As pessoas aqui não têm dinheiro para comprar quatro vistos para uma família, significaria gastar metade do salário apenas para cruzar a fronteira", disse Monika, uma moradora da rua da fronteira no lado ucraniano. Outra parcela da população tenta ganhar a vida com a produção agrícola. Nos últimos meses, o comércio do lado ucraniano também está se expandindo, já que a crise financeira internacional acabou gerando uma desvalorização da moeda local. O resultado é que os eslovacos agora cruzam a fronteira para comprar cigarros, roupa e sapatos. Mas como a circulação de carros é proibida entre as duas cidades, os eslovacos apenas trazem de volta para a UE o que conseguem carregar. Miklós Vinyals decidiu ganhar dinheiro com isso. Comprou um terreno e criou um estacionamento para os eslovacos que vão visitar parentes e fazer compras na Ucrânia.Os cerca de mil habitantes das duas cidades estão conformados de que a nova fronteira da UE afeta suas vidas. "Ninguém nunca nos perguntou a quem queremos pertencer", afirmou Andor Veres, morador do lado eslovaco.

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