Divisão da Bélgica incentiva outros separatismos na Europa

Divórcio entre flamengos e valões traz à tona a discussão sobre separatismos dentro da UE

Gabriella Dorlhiac, O Estadao de S.Paulo

01 de outubro de 2007 | 00h00

Na semana passa, um cidadão bem-humorado colocou seu país, a Bélgica, à venda no site de leilões online eBay. A brincadeira revela a frustração que o país vive hoje, perdido em meio a uma grave crise política. Mais de cem dias após sua eleição, o primeiro-ministro Yves Leterme, do Partido Democrata-Cristão, ainda não conseguiu formar um governo. Divididos entre flamengos - que falam holandês - e valões - que falam francês -, os belgas voltaram a discutir a separação do país entre as regiões de Flandres e Valônia. Os flamengos, que foram historicamente oprimidos pelos valões, querem seguir seu próprio caminho.Contudo, não é só o futuro da Bélgica que está em jogo. Uma eventual divisão do país pode abrir as portas para a separação de outras regiões da União Européia (UE). "Se uma separação for aceita e legitimada, então será impossível impedir uma enxurrada de outras divisões", disse, por telefone ao Estado, o suíço Nicolas Levrat, diretor do Instituto de Estudos Europeus da Universidade de Genebra.Há alguns anos os movimentos separatistas europeus voltaram a ganhar força. "O fracasso da criação de uma identidade supranacional européia, que tenha significado real para as pessoas, aliada à força duradoura das identidades nacionais e regionais são os motivos para o crescimento do separatismo", explicou o britânico Robin Shepherd, pesquisador do centro de estudos Chatham House, de Londres. Na opinião de Shepherd, os movimentos separatistas mais fortes na UE estão na Escócia, no País de Gales, na Bélgica e nas regiões espanholas da Catalunha e do País Basco.Na Grã-Bretanha, separatistas escoceses e galeses conseguiram vitórias importantes este ano. Em maio, o Partido Nacional Escocês (SNP na sigla em inglês), venceu pela primeira vez na história as eleições parlamentares locais. No País de Gales, em maio, o partido Plaid Cymru, também nacionalista, conquistou 15 cadeiras no Parlamento, forçando a formação de um governo de coalizão com os trabalhistas.A Espanha está ainda mais fragmentada. O país tem hoje 17 regiões autônomas que exigem separação de Madri. Entre os principais separatismos estão o do País Basco - onde atuam os terroristas do ETA -, e da Catalunha. Na sexta-feira, o chefe do governo basco, Juan José Ibarretxe, anunciou a convocação de um referendo, marcado para 25 de outubro de 2008, que definirá o futuro dos bascos. Na Catalunha, 73% da população votaram, no ano passado, a favor de um plano que deu à região ainda mais autonomia. Essas vitórias são reflexo da segurança fornecida pela UE. "Os separatistas perderam o medo do impacto da independência. Afinal, como parte de Estados membro do bloco, esses novos países, em tese, também passariam a ser da UE", afirmou Shepherd.A crise na Bélgica é o melhor exemplo dessa tranqüilidade dada pelo bloco. "O que está acontecendo hoje entre os belgas é que não há pressão para a formação de um novo governo. Não há risco de a moeda se desvalorizar ou de a economia entrar em colapso. Tudo continua funcionando muito bem", disse a cientista política belga Carol Sägesser, do Centro de Pesquisas e Informações Sociopolíticas (Crisp).Um outro ingrediente importante no fortalecimento do separatismo é a questão econômica. Em geral, as regiões ou países que querem se separar são as que contam com economias mais fortes e que estão cansadas de "sustentar" regiões mais pobres. É o caso de Flandres, que tem sua economia baseada na exportação de produtos de ponta e apresenta um baixo índice de desemprego. Na Valônia, a situação é oposta. As indústrias tornaram-se obsoletas e o desemprego ultrapassa os 17%, o dobro da região vizinha. "As diferenças econômicas realçam ainda mais o sentimento separatista", disse Levrat.Apesar do avanço do separatismo, ainda há uma clara distância entre o discurso dos partidos políticos e a vontade da população, que apóia uma maior autonomia, mas que ainda teme a independência completa. Mesmo na Bélgica, onde a separação é o assunto do momento, não há consenso entre a população. Em Flandres, 41% dos flamengos apóiam a divisão. Na Valônia, esse número é de apenas 10%. "A curto prazo não há risco de separações dentro de países da UE. No entanto, assim como há três anos os separatistas estavam enfraquecidos e hoje voltaram a ter força, não temos como prever o que acontecerá daqui a dez anos", afirmou Levrat.De acordo com ele, é justamente por isso que a UE deve tomar medidas para evitar a fragmentação de seus Estados. "Se hoje os 27 membros do bloco não conseguem chegar a um acordo, imagine com a criação de dezenas de novos Estados independentes? Seria impraticável", disse. Para Shepherd, a atual crise na Bélgica deve servir de alerta para aqueles que acreditam em uma profunda integração européia e querem transformá-la em um super-Estado. "O que a UE precisa é manter uma integração relativamente flexível. O bloco tem de servir como ferramenta para potencializar interesses nacionais. Um exemplo é a questão da segurança energética. Os europeus não conseguem enfrentar a ameaça da Rússia sozinhos, mas um bloco unido, com uma política única, é terá muito mais impacto."

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