Secretaria de Comunicação do Equador/AFP
Secretaria de Comunicação do Equador/AFP

‘Dizem que estou em campanha porque vou a vários lugares’, diz vice-presidente do Equador

Otto Sonnenholzner nega motivação eleitoral após ganhar visibilidade política na luta contra o coronavírus

Entrevista com

Otto Sonnenholzner, vice-presidente do Equador

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2020 | 04h00

Guayaquil é minha cidade natal e entendo a angústia e as reclamações justas de seus habitantes”. Com essa frase, o vice-presidente do Equador, Otto Sonnenholzner, sintetizou ao Estado o que sente ao ver as cenas de corpos sendo retirados das casas e ruas da cidade em razão do colapso dos sistemas de saúde e funerário em meio à pandemia do novo coronavírus

De perfil mais técnico e menos político, ele é o terceiro vice-presidente de Lenín Moreno - que assumiu em 2017 - e se tornou o protagonista na atual crise sanitária após o afastamento do presidente da linha de frente por estar no grupo de risco: ele tem 67 anos. Sonnenholzner passa a viajar pelo país e ganha visibilidade, o que torna seu nome uma aposta de analistas para concorrer à presidência em 2021, mas o político nega que esteja pensando em candidatura. “Não estamos em campanha nem ganhando popularidade para as próximas eleições. Não é algo que temos em mente agora.”

Sonnenholzner, de 36 anos e descendência alemã, é formado em Economia e foi professor universitário. Antes de assumir a vice-presidência, ele comandava, ao lado do pai, Ramón Sonnenholzner, um programa de rádio. 

Quando Moreno foi eleito seu vice era Jorge Glas, afastado em janeiro de 2018 do cargo quando foi condenado a seis anos de prisão por corrupção envolvendo a Odebrecht. Com a saída de Glas, Moreno envia uma lista à Assembleia, que escolhe María Alejandra Vicuña.

Em dezembro de 2018, também sob acusações de corrupção, ela renuncia. No mesmo mês, Sonnenholzner é nomeado ao cargo pela Assembleia.

Como está o plano do governo atualmente para o combate ao coronavírus?

Desde 11 de março, quando o Equador declarou emergência sanitária em razão da covid-19, adotamos medidas em todo o país para proteger a saúde de todos os cidadãos. Mas já estávamos nos preparando desde os primeiros alertas internacionais, analisando riscos e medidas desde janeiro. Fomos os primeiros da América Latina a aplicar restrições de mobilidade e isolamento preventivo obrigatório, os segundos em suspender aulas e eventos com multidões e os terceiros que mais testes realizaram por milhão de habitantes. Temos seguido as recomendações da OMS, colocando a saúde na frente da economia, agilizando a realização de testes e reforçando as medidas de  restrição de mobilidade. Como todo o mundo, estamos adotando novas medidas excepcionais e melhorando a forma de tomar decisões para enfrentar uma situação inédita na história contemporânea.

Quais novas medidas?

Triplicamos nossa capacidade de testes no país. Até sexta-feira, foram feitos 56.500 testes Contratamos mais de 1.284 profissionais da saúde, temos 134 hospitais, sendo 38 exclusivos para tratar a covid-19. No país todo temos 13.204 leitos na rede pública de saúde, 492 em unidades de terapia intensiva e 124 em UTIs infantis. Em um mês, destinamos US$ 298 milhões para a Saúde. Continuamos com o isolamento social e estamos implementando o uso da tecnologia para garantir seu cumprimento, com ferramentas de geolocalização. Não somos nós que determinamos o fim dessa crise, mas a evolução da doença.  

O senhor é de Guayaquil. Como se sente vendo o que ocorre na cidade e o que fazer para melhorar a situação?

Guayaquil é minha cidade natal e, por isso, entendo e sinto profundamente a angústia e as reclamações justas de seus habitantes. Por isso, temos focalizado e reforçado o trabalho na cidade. Quando os números (de infectados) aumentaram na província de Guayas mais do que no resto do país, imediatamente transferimos a sede do Ministério da Saúde para lá. Foi para essa província, considerada o epicentro da crise ao registrar cerca de 70% dos contágios, que eu me transferi no fim de março para, junto com as autoridades locais, redobrar os esforços para conter a propagação do vírus, reforçar o sistema sanitário público e coordenar as medidas necessárias para garantir a atenção social e a continuidade do trabalho da Força Tarefa Conjunta, criada para tratar dignamente os corpos. Apesar das críticas de alguns atores políticos, estamos passando nos hospitais pessoalmente para garantir que a ajuda a famílias mais vulneráveis chegue. 

Qual é a atuação com a população de Guayaquil?

É preciso entender que aqui existe uma corresponsabilidade dos cidadãos frente à crise. Desde o começo do isolamento, pedimos insistentemente que o inimigo comum seja a doença e não a desobediência, que as pessoas fiquem em casa e evitem propagar o contágio. Guayaquil é o polo econômico do país e uma cidade complexa. As realidades aqui são muito diferentes umas das outras. É uma população numerosa, na qual pouco a pouco as medidas começam a dar resultados. Trabalhamos com autoridades locais para proteger aqueles que nos protegem. Na maior parte do país baixamos o número de mortos e Guayaquil não é exceção, mas ainda há muito para fazer e faremos. 

O senhor se tornou o rosto político do combate à pandemia no Equador. O que mudou no seu trabalho?

No Equador, temos que sair dessa crise todos juntos. Nenhuma pessoa pode ser o rosto do combate à pandemia porque aqui não há alguém mais importante que os outros. E se alguém representa o rosto da luta contra a pandemia são os médicos e todo profissional da Saúde, os agricultores e os transportadores, aqueles que recolhem o lixo e garantem os serviços básicos de água e eletricidade, a polícia e os militares que nos protegem. Cada um desses heróis anônimos que com seu trabalho protege nossa saúde e vida. Desde que chegamos à vice-presidência temos feito o mesmo que fazemos agora. Percorremos o país para escutar os problemas das pessoas e levar soluções. Trabalhamos todos os dias e fazemos o melhor que está ao nosso alcance para o bem comum. Entendemos que aqui estamos para servir aos equatorianos, esse é nosso compromisso e nosso dever. Antes, agora e sempre.

O senhor tem planos de concorrer à presidência?

Não estamos em campanha nem ganhando popularidade para as próximas eleições. Não fizemos isso antes e muito menos faremos agora. Não nos interessa. Nosso único objetivo é fazer o correto e dizer a verdade. Não é algo que temos em mente agora, muito menos quando as prioridades estão em temas muito mais urgentes e importantes. Ao contrário do que dizem rumores mal intencionados e críticas que nunca faltarão, nosso único objetivo agora é cumprir com nossas obrigações como autoridades. Dizem que estou em campanha porque vou a distintos lugares do país. O que posso fazer se jamais me conformarei com um trabalho em escritório se posso ser mais útil em território? Não deixarei de trabalhar para agradar as pessoas que se dedicam a criticar detrás de uma mesa ou da comodidade das redes sociais. Agora temos que trabalhar juntos e dando o melhor de cada um de nós. O primordial é cuidar da vida de todos os equatorianos. É o momento do Equador. 

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