Óscar Del Pozo/ AFP
Óscar Del Pozo/ AFP

Dizimada na primeira onda, cidade espanhola resiste a nova investida do coronavírus

Em Tomelloso, pequena cidade na região de La Mancha, primeira onda da pandemia matou quase de 1% da população; segunda onda impõe medo, mas cifras são menores

Hazel Ward e Benjamin Bouly Rames, AFP

01 de dezembro de 2020 | 10h00

MADRI - De pé, em frente ao necrotério do hospital, Lourdes Visus treme ao lembrar da incessante procissão de carros fúnebres para recolher corpos de vítimas da covid-19 - pacientes que havia atendido horas antes.

Quando a pandemia explodiu, Visus trabalhava como auxiliar de enfermagem em Tomelloso, uma pequena cidade espanhola na árida La Mancha, que viu a morte se multiplicar.

"Nos primeiros dias", conta ela, descia para fumar ou "inclusive descia para dar um grito porque precisava disso".

"Mas tive que parar de vir para este canto", quando viu que "levavam um cadáver e já vinha outro carro fúnebre, constante, constante (...) Era muito doloroso", conta a mulher de cabelos tingidos de azul.

Toda a Espanha foi duramente afetada na primeira onda do coronavírus, mas Tomelloso o foi com uma crueza particular. A cidade perdeu quase 1% de seus 36.000 habitantes. Nesta segunda onda, a história tem sido outra, com cifras mais baixas. Mas as lembranças ainda estão frescas na memória.

Umas 300 pessoas foram sepultadas no cemitério municipal durante a primeira onda, conta à AFP a prefeita Inmaculada Jiménez. "A cada dia podiam ser enterrados uns 10, 11, 12 vizinhos. Foi muito duro", recorda.

Antes da crise sanitária, Tomelloso era conhecida pelos vinhedos e por ser uma parada na rota turística que segue os passos de Dom Quixote, o personagem mítico de Miguel de Cervantes.

Mas em meio à pandemia, a imprensa chegou a chamá-la de "Wuhan de La Mancha", em alusão à cidade chinesa onde o novo coronavírus foi detectado pela primeira vez.

'Parece mentira'

O vírus poupou poucas famílias da cidade.

Ángeles García, por exemplo, perdeu em março sua mãe, que passou uma semana internada.

García, de 50 anos, não pôde visitá-la e as informações que recebia do sobrecarregado hospital eram escassas. "Às 3 da manhã, ligaram. Foi rápido. À 13h15 fomos diretamente para o cemitério", lembra.

O fato de não ter podido se despedir a abalou e ela levou meses até conseguir falar no assunto. "Quando é assim, tão de repente, parece mentira. É como se a tivessem atropelado", explica.

No mesmo hospital, Francisco Navarro precisou lutar pela vida após desenvolver pneumonia dupla. "Fiquei ali dez dias, tentando respirar", conta Navarro, um jornalista local de 56 anos, para quem ter ficado horas de bruços diariamente tentando puxar o ar foi "uma tortura".

Ele sobreviveu, mas sofre de cansaço, arritmia e "melancolia". "Eu me tornei muito sentimental, choro muito, qualquer coisa me emociona, me faz reviver aquilo um pouco", relata.

Uma "guerra"

Em 31 de março, no hospital de Tomelloso, com 90 leitos, 141 pessoas com covid-19 eram tratadas por uma equipe exausta e sem material suficiente para se proteger.

Visus fez um diário contando sua experiência. Ela se emociona ao ler o que escreveu em 20 de março, seis dias depois de a Espanha confinar sua população.

"Vai nos deixar muitas baixas esta guerra", que gerou um "ataque maciço da população" e provocará "efeitos colaterais", escreveu na ocasião.

"Iria ao hospital alguns dias ajudar minhas colegas e em outros dias, sinto tanto medo que me dá vontade inclusive de ligar e dizer que tenho sintomas, que vou ficar em casa em quarentena", continuou.

Três dias depois, destacava: "Como têm sido estes dias? Caóticos. Não há material para o pessoal sanitário e estamos expostos ao inimigo constantemente. Enfrentamentos com todo o mundo, que impotência!"

As casas de repouso para idosos também sofreram bastante e no começo de abril, 177 dos 400 destes lares na região registravam infecções. Em uma residência com 170 leitos em Tomelloso, 74 pessoas faleceram, segundo cifras oficiais.

Aprender a lição

Agora, quando a Espanha e a Europa em geral enfrentam a segunda onda da pandemia, Tomelloso evitou o pior e conta apenas 13 óbitos entre maio e setembro.

"Hoje há 9 hospitalizados com covid-19 no Hospital de Tomelloso", disse recentemente David Vicente Huertas, da assessoria de Saúde de Castela-La Mancha.

A diferença, em sua avaliação, é que na primeira onda os casos eram diagnosticados quando os pacientes chegavam à emergência, enquanto agora a detecção ocorre muito antes, graças a 620 rastreadores.

Depois da suspensão do 'lockdown', em junho, a prefeita Jiménez manteve restrições, como o cancelamento de festividades e o fechamento da piscina municipal no verão.

"A situação em Tomelloso hoje está muito contida, somos umas das cidades de Castela-La Mancha com menor número de casos por número de habitantes, o que quer dizer que funcionaram as medidas que implantamos", assim como "a cautela" dos moradores, disse.

Navarro concorda em que a melhora foi fruto de um esforço coletivo. "Aprendemos muito bem a lição" com a primeira onda e desde então "a temos levado muito a sério"./ AFP

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