LEONARDO MORAIS/ESTADÃO
LEONARDO MORAIS/ESTADÃO

DNA é pista em sumiço de goiano no Arizona

Com ferimentos, brasileiro foi deixado para trás por coiotes à beira de estrada

Cláudia Trevisan, enviada especial / Tucson, EUA, O Estado de S.Paulo

27 Agosto 2017 | 05h00

TUCSON, EUA - Todas as terças-feiras, Alvaro Enciso e Ron Kovatch percorrem o deserto do Arizona em busca de locais onde foram encontrados os corpos de imigrantes clandestinos vindos do México. Pontos vermelhos sinalizam as coordenadas de cada um no mapa que usam como guia. A missão de ambos é transformar esses símbolos abstratos em marcas concretas da passagem trágica desses estrangeiros pelo cenário árido que se estende por dezenas de milhares de quilômetros quadrados nos EUA.

Artista plástico nascido na Colômbia, Enciso iniciou o projeto há quatro anos. Desde então, fincou 550 cruzes na região, nos lugares em que corpos, esqueletos ou ossos foram localizados. A cada semana, ele constrói quatro cruzes no ateliê que mantém em sua casa, em Tucson. Todas elas têm um ponto vermelho, que se relaciona ao que está marcado no mapa das mortes. Nenhuma é igual à outra. Enciso as pinta de cores diferentes, com sobras de tinta doadas, e as decora com objetos deixados no deserto pelos imigrantes clandestinos – latas de sardinha, de feijão ou de doces, tampas de garrafa e pedaços de roupa.

Entre 2001 e 2016, foram encontrados cadáveres de 2.615 estrangeiros no Deserto do Arizona, de acordo com dados do Instituto Médico Legal (IML) do Condado de Pima, que abrange Tucson. Desse total, 939 ainda não foram identificados. Estima-se que outros 2 mil tenham morrido no mesmo período, mas ainda não foram encontrados. Entre eles, pode estar o brasileiro Jean Carlos da Cruz Gomes, que desapareceu no Arizona em 2013, quando tentava entrar nos EUA. “Tem muita gente morta lá. É como sumir no mar. Talvez nunca consiga encontrá-lo”, disse Danny Pietro Gomes, irmão mais novo de Jean Carlos, que mora na Califórnia.

Cumprindo uma jornada de trabalho de 12 horas por dia, de segunda-feira a sábado, Danny ainda não conseguiu obter o atestado de óbito do irmão, cuja página no Facebook continua ativa. Em seu último post, do dia 18 de abril de 2013, Jean Carlos compartilhou um link com fotos dos suspeitos do ataque terrorista na Maratona de Boston divulgadas pelo FBI. 

Pouco antes, ele havia publicado mensagem do então presidente Barack Obama em defesa de regras mais estritas para o porte de armas, tema de vários outros comentários que deixou na rede social. O goiano havia morado nos EUA de 2002 a 2010, quando decidiu voltar ao Brasil. Como Danny, ele trabalhava na construção civil. Antes de embarcar para São Paulo, Jean Carlos gastou parte de suas economias na compra de máquinas de bordar, com as quais pretendia abrir uma empresa de confecção. Na alfândega brasileira, elas foram apreendidas pela Receita Federal. Sem capital, Jean Carlos não conseguiu montar um negócio nem encontrou trabalho de que gostasse.

Em 2012, Jean Carlos decidiu retornar à Califórnia. Sua primeira tentativa foi entrar pelo mar, a partir das Bahamas. Com dinheiro emprestado, viajou ao país caribenho, mas foi deportado quando seu visto venceu. Essa rota passou a ser usada com mais frequência no início desta década, depois que a empresa aérea Copa Airlines inaugurou voos de várias cidades brasileiras para Nassau, com uma escala no Panamá. O visto para as Bahamas tem validade de 15 dias e muitos brasileiros ficam além desse prazo, à espera do sinal verde dos coiotes que os levarão aos EUA. Dados do Ministério das Relações Exteriores mostram que 64 brasileiros foram detidos e deportados do país em 2012. No ano seguinte, o número subiu a 100. Em 2016, foram 73 casos.

De volta ao Brasil, Jean Carlos decidiu fazer uma nova tentativa pelo México, usando a mesma rota do Deserto do Arizona que havia trilhado em 2002. No início de julho de 2013, ele voou para Cancún. De lá, viajou para Caborca, cidade mexicana localizada a 150 quilômetros da fronteira. Hospedado em um motel, Jean Carlos esperou quase um mês pelo aceno dos coiotes. 

No dia 4 de agosto, ele embarcou com seu grupo em um ônibus para Sonoyta, que fica ao lado da linha que divide o México dos EUA. Três dias mais tarde, ele partiu para a travessia. “Estou bem”, escreveu na última mensagem que mandou ao irmão. Na manhã do dia seguinte, 8 de agosto, Danny recebeu um telefonema do coiote: “Seu irmão está com bolhas nos pés e não está conseguindo caminhar mais. Vamos esperar”. À noite, outra comunicação: “Seu irmão desistiu e ficou à beira de uma estrada”.

Banco de dados

Danny nunca mais teve notícias de Jean Carlos nem conseguiu se comunicar de novo com o coiote. A esperança de ao menos identificar seu corpo, caso ele esteja entre os 939 enviados ao IML, foi reacendida no fim de 2016, quando Danny recebeu telefonema do Centro Colibri para Direitos Humanos, com sede em Tucson. Dirigida pela antropóloga forense Robin Reineke, a entidade lançou no ano passado um programa de coleta de DNA de parentes de imigrantes que desapareceram no deserto americano. O Colibri tem uma lista de 2.500 pessoas que nunca chegaram a seu destino ao tentar a travessia. 

Os parentes de muitas dessas vítimas vivem nos EUA de maneira clandestina, o que cria empecilhos para o trabalho de Gregory Hess, chefe do Instituto Médico Legal do Condado de Pima. Não há disposição nesse grupo de compartilhar suas amostras de DNA com o FBI, que administra o banco federal. “Nós temos o DNA de todas as 939 pessoas que ainda não identificamos, mas não temos com o que compará-lo”, explicou Hess. Como o IML do Condado de Pima e o Centro Colibri usam o mesmo laboratório para seus testes, a equipe de Reineke tenta superar essa deficiência e criar uma “biblioteca” de material genético dos parentes de desaparecidos que possa ser usada por Hess. “Criamos um santuário no qual as famílias se sentem seguras para fornecer seus dados genéticos”, afirmou Reineke. No início do ano, o Colibri colheu amostras do DNA de Danny.

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