Do 11 de Setembro ao 11 de Fevereiro

O antídoto mais eficaz contra o 11 de Setembro talvez venha a ser o 11 de Fevereiro, o dia em que Hosni Mubarak admitiu que acabara o jogo de sua ditadura de 30 anos e deixou a cidade sob escolta militar a caminho da praia.

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2011 | 00h00

Nós tentamos invasões de terras muçulmanas. Tentamos impor novos sistemas de governo a elas. Tentamos guerras ao terror. Tentamos gastando bilhões de dólares.

O que nós não tentamos foi enfrentar o que está podre no mundo árabe ajudando um movimento por mudanças doméstico, de baixo para cima, a transformar um Estado policial apoiado pelos Estados Unidos numa democracia estável.

Esta é a oportunidade crítica que o Egito nos oferece. O radicalismo islâmico prosperou sobre os padrões duplos americanos evidentes no forte apoio a regimes como o de Mubarak.

Ele prosperou da repressão muito brutal que era supostamente fundamental para barrar os jihadistas.

E se beneficiou da redução de dezenas de milhões de cidadãos árabes a meros objetos, despojados de dignidade, e, por isso, mais propensos a procurar significado em movimentos de violência absolutistas.

Se egípcios ocidentalizados e a Irmandade Muçulmana podem coexistir na segunda república nascente do Egito, e se um povo árabe desde há muito subjugado pode mostrar que é um ator da história e não seu peão impotente, a probabilidade de outro Mohamed Atta andar pelas ruas do Cairo diminuirá. Em 18 dias eletrizantes, o Egito se tornou uma chave para o enigma não resolvido do 11 de Setembro, aquele que o presidente Barack Obama prometeu enfrentar construindo pontes para o mundo muçulmano, antes de o Afeganistão desviar sua atenção.

"Se entendermos corretamente o Egito, ele poderá ser o melhor remédio para nos livrar do radicalismo", disse Mohammed ElBaradei, uma das figuras da oposição egípcia e ganhador do Prêmio Nobel da Paz.

Limpeza. No Oriente Médio, espera-se o pior. Mas depois de observar a extraordinária conquista cívica do Egito na construção da coalizão que destituiu Mubarak, depois de observar a Praça Tahrir se tornar uma central de cooperação, e depois de observar o profissionalismo do Exército egípcio, estou convencido de que o país tem o que é preciso para construir uma sociedade representativa, decente - uma sociedade que desmente todos os estereótipos associados com aquele depreciativo estenográfico, "A Rua Árabe".

De fato, após Tahrir, retiremos essa expressão. Por falar nas ruas, eu as observei serem limpas na manhã seguinte após a revolução.

Toda a varredura e esfregação me tentaram a sugerir que não havia nenhuma necessidade de exagerar e tentar transformar a gloriosa metrópole da poeira, o Cairo, em Zurique. Mas Marwa Kamal me esclareceu.

Kamal, de 26 anos, parecia cheia de orgulho com seu lenço de cabeça púrpura. Ela estava perto de um cartaz que dizia, "Desculpem o incômodo, estamos construindo o Egito". Eu perguntei por que ela estava varrendo.

"Toda a sujeira está no passado", disse ela. "Queremos limpar o velho e começar limpos."

O químico aposentado Mahmoud Abdullah interferiu. "Esta é uma geração muito preciosa", ele disse, apontando para ela. "Eles fizeram o que nós não conseguimos fazer."

Neste exato momento, o Egito está sem presidente, sem vice-presidente, sem Constituição, sem Parlamento e não se vê uma presença significativa da polícia nas ruas. Mas foi o encontro de gerações para esses dois egípcios; e ele traz um novo senso de nacionalidade forjado por inúmeras outras descobertas rompedoras de barreiras de 18 dias revolucionários compartilhados.

Talvez seja uma boa coisa o fato de Mubarak, encasulado com seus acólitos, ter se mostrado teimoso, trancado na prisão de seu árabe formal e sua arrogância enquanto linguagem e nação se soltavam. Acho que as coisas estavam decididas quando o Exército se recusou a disparar. Mas ao persistir, Mubarak deu tempo para os egípcios se conhecerem.

As revoluções, como as guerras, têm seus interlúdios de tédio. Eles são preenchidos com conversas. E o que os egípcios descobriram? Eis uma cena: Marwa Kassem, de 33 anos, ocidentalizada, vivendo em Genebra, conversando com o barbudo Magdy Ashour simpático à Irmandade Muçulmana. Ela foi correndo para o Cairo assim que o levante começou e uniu-se aos protestos depois que um amigo foi morto. Se eles tivessem cruzado na rua um mês antes, teriam se retraído, separados pelo medo.

Ele diz a ela que foi preso em intervalos regulares. Quantas vezes? Às vezes duas vezes por mês. E? O filho de 14 anos de Ashour está observando. Ele pede para ele se afastar, dizendo, "quero mostrar a ele a liberdade, não a minha covardia." Corre um frisson de tensão. Ashour se levanta. "Eles me despiram, vendaram meus olhos", diz. Ele une as mãos às costas: é assim que os gorilas de segurança de Mubarak o algemaram. "Eles me penduraram num gancho na parede", diz ele. Aí vieram os choques elétricos: nos dedos dos pés, nos mamilos, nos genitais.

Há lágrimas em seus olhos agora. Há lágrimas nos de Kassem também. Ele ergue as calças até o joelho, revelando uma terrível cicatriz escura na panturrilha. Ela não consegue olhar. Por que esse tratamento? "Eles queriam saber se eu conhecia Osama bin Laden." O que ambos querem agora, essa mulher secular e esse homem religioso, esses dois egípcios, é um Estado de leis e direitos.

Superar o 11 de Setembro com o 11 de fevereiro: o caminho da reconciliação não passa por Bagdá ou Cabul, mas por Tahrir. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.