Do aço ao lixo à beleza

Colunista conta a transformação de uma cidade pobre nos EUA protagonizada por um prefeito e sua esposa brasileira.

Lucas Mendes, BBC

14 de outubro de 2010 | 06h33

Braddock, na Pensilvânia, ex-campeã do aço, foi para a lata de lixo, mas pode ganhar uma medalha de ouro em redenção, graças em parte, a uma brasileira.

Vamos devagar.

Na virada do século 19 para o 20, a pujança econômica americana ia a todo vapor. O aço era uma das locomotivas.

Andrew Carnagie abriu sua primeira siderúrgica em Braddock, uma cidade histórica onde George Washington derrotou as tropas inglesas do general Braddock. Carnagie também construiu na cidade a primeira de suas 1.689 bibliotecas públicas.

A bela e enorme biblioteca de Braddock era modelo e atração pelo desenho, livros e limpeza. Um túnel ligava a siderúrgica à biblioteca, mas, no caminho, os empregados passavam por chuveiros.

Na década de 50, Braddock estava no auge da prosperidade com mais de 30 mil habitantes e um comércio que atraia vizinhos de Pittsburgh, a 15 quilômetros de distância. A decadência começou nos anos 60, quando o aço americano perdeu a competitividade, e o processo acelerou nas décadas de 70 e 80. Noventa por cento da população deu no pé. Chegaram as dragas e o crime.

Hoje, o nível de pobreza é o triplo da média do país, não tem posto de gasolina, restaurante, nem supermercado. A paisagem, com seus prédios em ruínas, lotes vagos e sujeira, foi o cenário natural para o filme pós-apocalíptico The Road, em 2009. O fim da picada, como o Bronx em Nova York, um símbolo do fracasso do capitalismo.

A brutalidade da decadência atraiu um jovem de família rica, com diploma de administração pública de Harvard, quase 2 metros de altura, 160 kg, corpanzil de motoqueiro. Num braço está tatuado o código postal da cidade, no outro, as datas dos homicídios. Ele é o prefeito John Fetterman, de 40 anos, herói e redentor de Braddock. Um branco numa cidade de maioria negra.

Começou como voluntário comunitário pelo social. Tirava jovens das ruas e levava para programas de educação, atividades esportivas e agrícolas. No meio da cidade há uma fazenda orgânica. Investiu do próprio bolso para comprar e reconstruir escolas e prédios abandonados. Um bibliotecário comprou por um dólar o prédio da histórica biblioteca que ia ser derrubada. Já funciona. John investiu US$ 2 mil do próprio bolso para comprar um depósito e o dinheiro da poupança para comprar uma igreja abandonada que transformou num centro de artes. Esta cheia de artistas.

Em 2005, quatro anos depois de chegar à cidade, John Fetterman foi eleito prefeito por um voto de diferença. Ano passado foi reeleito de lavada. Braddock, com 3 mil habitantes, tinha dez homicídios por ano. Nos últimos 29 meses não teve nenhum.

A miséria de Braddock e a ação do prefeito chegaram à mídia. Gisele estava num centro de ioga, na Costa Rica, quando leu sobre John e a cidade. Ela morava em Newark, outra cidade quase tão decadente, onde também fazia trabalho comunitário. Escreveu uma carta para ele oferecendo ajuda.

Hoje o casal tem um filho de 18 meses chamado Karl pelos americanos e Temilson pelos brasileiros e é fluente em português (Temílson Resende, tio dela, é o Telmo, capa de Veja. Foi o espião da ABIN que gravou conversas do presidente FHC com alguns dos seus principais assessores. Mas isto é outra história).

Gisele, carioca tijucana de 27 anos, chegou aos Estados Unidos aos 11 anos com a mãe, nutricionista, em fuga da violência do Rio. Gisele seguiu a carreira da mãe na faculdade, é vegetariana radical, proíbe entrada de carne em casa embora a comida favorita do marido seja cheeseburger.

Quando não está com Karl, Gisele é primeira-dama em tempo integral. Procura fraldas para bebês, casa e material de construção para novos residentes. Eles conhecem todos os moradores da cidade e o telefone da casa é público. Esta semana vai distribuir um caminhão de roupas doadas pelos produtores do último filme rodado na cidade.

O dinheiro para Braddock não vem só do marido e de pequenas contribuições. A fabricantes de jeans Levi Strauss fez o comercial dela com os moradores da cidade, como um exemplo da classe operária e produtiva americana. US$ 2 milhões em dois anos para os cofres da cidades.

Da janela, o casal vê a extraordinária biblioteca de Carnagie, e boa parte da "beleza maligna", como o marido se refere à cidade. O salário dele é de US$ 150 por mês, mas diz que ja ganhou em todos investimentos, no emocional, no físico e no financeiro.

Graças a John e Gisele, Braddock hoje é uma das latas de lixo mais nobres dos Estados Unidos.

PS: As imagens de John, Gisele, Karl e Braddock estão no YouTube.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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