Noh Juhan/ Netflix
Noh Juhan/ Netflix

Do BTS ao 'Round 6': como a Coreia do Sul virou um gigante cultural

País era conhecido por seus carros e smartphones, mas público global tem se maravilhado cada vez mais com sua indústria de entretenimento

Redação, O Estado de S.Paulo

05 de novembro de 2021 | 05h00
Atualizado 05 de novembro de 2021 | 16h50

PAJU, Coreia do Sul — Em um novo drama sul-coreano filmado em um cavernoso estúdio nas imediações de Seul, um detetive caça um homem amaldiçoado a viver 600 anos. Disparos de pistola estalam. Um momento de quietude se segue. Então, uma mulher interrompe o silêncio, berrando: “eu disse para você não atingi-lo no coração!”.

A cena foi filmada várias vezes, por mais de uma hora, como parte da nova série Bulgasal: Immortal Souls (Bulgasal: almas imortais), com lançamento programado para dezembro na Netflix. Jang Young-woo, o diretor, espera que este seja o mais novo fenômeno sul-coreano a cativar o público internacional.

A Coreia do Sul se irritou por muito tempo com a falta de exportações culturais inovadoras do país. Por décadas, sua reputação foi definida pelos carros e telefones celulares de empresas como Hyundai e LG, enquanto seus filmes, produções de TV e música eram consumidos principalmente por um público regional. Agora, porém, estrelas do K-pop como Blackpink, o drama distópico 'Round 6'e filmes premiados como Parasita são tão onipresentes quanto os smartphones Samsung.

Da mesma maneira que a Coreia do Sul se inspirou no Japão e nos Estados Unidos para desenvolver excelência em manufatura, os diretores e produtores sul-coreanos afirmam que estudam Hollywood e outros polos de entretenimento há anos, adotando e refinando fórmulas — e acrescentando distintivos toques sul-coreanos. Uma vez que serviços de streaming como Netflix romperam barreiras geográficas, afirmam os realizadores, o país se transformou, indo de um mero consumidor da cultura ocidental a um gigante da indústria cultural e um dos principais exportadores mundiais de cultura, por mérito próprio.

Nos anos recentes, a Coreia do Sul chocou o mundo com Parasita, o primeiro longa-metragem em língua estrangeira a ganhar um Oscar na categoria Melhor Filme; apresentou ao público global uma das maiores, talvez a maior, banda do planeta, o BTS; e a Netflix introduziu em sua programação 80 filmes e produções de TV sul-coreanos, muito mais do que o serviço de streaming imaginava quando iniciou sua atividade na Coreia do Sul, em 2016, segundo informou a empresa. Três das 10 produções mais populares na Netflix eram sul-coreanas até segunda-feira passada.

“Quando fizemos Mr. Sunshine, Pousando no amor e Sweet Home não imaginávamos uma reação global”, afirmou Jang, que trabalhou como coprodutor ou codiretor nesses três sucessos sul-coreanos, que são exibidos pela Netflix. “Tentamos apenas realizar produções mais interessantes e relevantes possível. Foi o mundo que começou a entender e se identificar com as experiências emocionais que criamos desde sempre.”

A crescente demanda por entretenimento sul-coreano inspirou realizadores independentes como Seo Jea-won, que escreveu o roteiro de Bulgasal com sua mulher.

Seo afirmou que sua geração devorou sucessos da TV americana como O homem de seis milhões de dólares e Miami Vice, aprendendo “o básico”, experimentando com esse formato e acrescentando tons sul-coreanos. “Quando os principais serviços de streaming, como a Netflix, apareceram com sua revolução na distribuição de produções de TV, estávamos prontos para a briga”, afirmou ele.

A produção cultural da Coreia do Sul ainda é minúscula em comparação às suas exportações de semicondutores, mas já deu ao país um tipo de influência que pode ser difícil mensurar. Em setembro, o dicionário Oxford acrescentou 26 novas palavras de origem sul-coreana, incluindo “hallyu”, ou onda coreana. A Coreia do Norte qualificou a invasão K-pop como um “câncer maligno”. A China suspendeu dezenas de contas de fãs de K-pop nas redes sociais por seu comportamento “insalubre”.

A capacidade sul-coreana de jogar como peso mais pesado enquanto potência cultural contrasta com a ineficiência das campanhas estatais de Pequim de tentar alcançar o mesmo tipo de influência. Autoridades sul-coreanas que tentaram censurar os artistas locais ainda não obtiveram sucesso. Em vez disso, os políticos começaram a promover a cultura pop sul-coreana, aprovando uma lei que permite a artistas pop do sexo masculino postergar suas obrigações de serviço militar. Esse mês, as autoridades permitiram que a Netflix instalassem uma gigantesca estátua do 'Round 6' no Parque Olímpico de Seul.

Esse sucesso explosivo não ocorreu da noite para o dia. Muito antes de 'Round 6' se tornar a série mais assistida na Netflix ou do BTS se apresentar nas Nações Unidas, produções de TV sul-coreanas como Sonata de inverno e bandas como Bigbang e Girls’ Generation tinham conquistado mercados na Ásia e outras regiões. Mas não tinham atingido o alcance global associado à onda atual. O Gangnam Style, de Psy, foi um sucesso pontual.

“Adoramos contar histórias e ter boas histórias para contar”, afirmou Kim Young-kyu, diretor-executivo do Studio Dragon, o maior estúdio da Coreia do Sul, que realiza dezenas de produções de TV anualmente. “Mas nosso mercado doméstico é pequeno demais, lotado demais. Precisávamos nos globalizar.”

Somente após o ano passado, quando Parasita, um filme que discute a gritante desigualdade entre ricos e pobres, ganhou o Oscar, o público internacional começou a se interessar verdadeiramente pela produção cultural da Coreia do Sul, apesar de o país produzir obras similares há anos.

“O mundo não as conhecia antes de plataformas de streaming como Netflix e YouTube ajudar a revelá-las, no momento em que as pessoas consomem mais entretenimento online”, afirmou Kang Yu-jung, da Universidade Kangnam, em Seul.

Antes da Netflix, um seleto grupo de emissoras sul-coreanas controlava a indústria da TV no país. Essas emissoras, desde então, foram eclipsadas por plataformas de streaming e estúdios como o Studio Dragon, que dão financiamento e liberdade artística necessários para que as produções sul-coreanas mirem audiências internacionais.

Censores sul-coreanos vasculham os meios de comunicação em busca de conteúdo qualificado como violento ou sexualmente explícito, mas as produções da Netflix estão sujeitas a restrições menos rigorosas do que as aplicadas sobre emissoras de TV locais.

Os realizadores também afirmam que as leis de censura doméstica os acostumaram a forçar mais profundamente sua imaginação, o que produziu personagens e tramas muito mais envolventes do que a maioria.

As cenas com frequência são carregadas de ricas interações emocionais, ou “sinpa”. Os heróis normalmente possuem defeitos profundos, são pessoas comuns encurraladas em situações impossíveis, apegadas a valores como amor, família e o bem do próximo.

Diretores e produtores afirmam almejar deliberadamente que seus personagens “tenham cheiro de seres humanos”.

Enquanto a Coreia do Sul emergia de um vórtex de guerra, ditadura, democratização e rápido crescimento econômico, os artistas do país desenvolveram uma astuta intuição a respeito do que as pessoas querem assistir e ouvir, e isso com frequência tem a ver com transformações sociais. A maioria dos filmes bem-sucedidos nas bilheterias no país possui tramas que se baseiam em assuntos que dialogam com pessoas comuns, como a desigualdade econômica, e o desespero e os conflitos de classe decorrentes dela.

O diretor de 'Round 6', Hwang Dong-hyuk, ficou famoso com Dogani, um filme de 2011 cuja trama se baseou em um escândalo sexual ocorrido na vida real, em uma escola para surdos. A raiva generalizada que o filme incitou forçou o governo a expurgar professores acusados de cometer abusos sexuais em escolas para menores com deficiências.

Apesar de os artistas do K-pop raramente falarem de política, suas músicas permeiam grandemente a vívida cultura de manifestações na Coreia do Sul. Quando estudantes da Universidade Ewha para Mulheres, em Seul, iniciaram os protestos em seu campus que desencadearam o levante contra o governo em 2016, elas cantavam Into the New World, da banda Girls’ Generation. A canção One Candle, da boyband g.o.d. virou o hino informal da “Revolução das Velas” que derrubou a ex-presidente Park Geun-hye.

“Uma característica dominante dos conteúdos sul-coreanos é sua combatividade”, afirmou Lim Myeong-mook, autora de um livro a respeito da cultura jovem na Coreia do Sul. “Eles canalizam as frustrações das pessoas em seu desejo por ascensão social, sua raiva e sua motivação para o ativismo em massa.” E agora, com tanta gente em casa tentando lidar com a enorme angústia causada pela pandemia, audiências globais podem estar mais receptivas a esses temas do que jamais estiveram.”

“Os artistas sul-coreanos são adeptos de copiar rapidamente o que há de interessante no exterior e se apropriar disso, melhorando e tornando esse material mais interessante”, afirmou Lee Hark-joon, professor da Universidade Kyungil e coautor do livro K-pop Idols (Ídolos do K-pop).

No set de filmagem de Bulgasa, dezenas de funcionários se apressavam para acertar cada detalhe da cena — a fumaça no ar, as gotas de água caindo sobre o chão úmido e a aparência “triste e sofrível” do homem que foi vítima dos disparos. Sua trama sobrenatural remete a consagradas séries americanas, como Arquivo X e Stranger Things. Mesmo assim, Jang criou uma tragédia singularmente coreana, centrada em “eopbo”, a crença entre os coreanos de que boas e más ações afetam a existência das pessoas após a morte.

Com base nos recentes sucesso das produções sul-coreanas no exterior, Jang afirmou esperar que os espectadores afluam para as novas séries. “A lição é: o que faz sucesso na Coreia do Sul faz sucesso globalmente.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.