PEDRO UGARTE / AFP
PEDRO UGARTE / AFP

Do Chile a Hong Kong: confira os principais conflitos em andamento no mundo

Maioria dos movimentos nasceu nas redes sociais, que se tornaram vetores cruciais de mobilização; desigualdade econômica e contestação política são principais motores das manifestações

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 18h00
Atualizado 24 de outubro de 2019 | 16h27

Chile, Barcelona, Equador, Argélia, Líbano, Hong Kong. Os conflitos sociais se multiplicaram neste ano em todo o mundo e, embora os modos de ação sejam diferentes, compartilham bases comuns, como desigualdade econômica e contestação política.

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Pobreza e desigualdade

O aumento do preço da tarifa do metrô no Chile, a eliminação dos subsídios à gasolina no Equador, um imposto sobre as chamadas do WhatsAap no Líbano.

A centelha que incendeia a raiva popular pode parecer ridícula, mas revela um mal-estar mais profundo: a crescente diferença entre ricos e pobres. Em 2018, 26 bilionários concentraram tanta riqueza quanto metade da população mundial, segundo a ONG Oxfam.

"As crescentes desigualdades são denunciadas em todos os lugares", diz Thierry de Montbrial, presidente do Instituto Francês de Relações Internacionais (IFRI).

"Isso está ligado à globalização, às revoluções tecnológicas e às mudanças que esses fatores causam nas sociedades. O desaparecimento da classe média é um fenômeno mundial", acrescenta.

"O que acontece não é porque aumentaram o preço do metrô em 30 pesos. Isso está acontecendo há 30 anos", disse um manifestante chileno, que citou entre os problemas do país o Sistema de aposentadoria, as listas de espera de hospitais, o custo dos remédios e os baixos salários.

Contestação política

Nesse contexto, a corrupção de parte da elite se torna insuportável para o povo, como no Líbano, onde milhares de pessoas vão às ruas desde 17 de outubro para protestar contra a classe política, acusada de ser corrupta.

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Em Beirute, Zalfa Abukais, de 27 anos, diz que se manifesta contra "os patifes que estão no poder há 30 anos" - ou seja, desde o fim da guerra civil em 1990. "Eles são todos ladrões", diz Abukais.

"Há uma revolução social, com uma demanda crescente por democracia participativa", disse Thierry de Montbrial.

A Argélia, por exemplo, é palco desde 22 de fevereiro de um movimento de protesto sem precedentes, o "Hirak", que exige o desmantelamento do sistema no poder desde a independência do país, em 1962.

Essas demandas são ainda mais fortes entre os jovens, muitas à frente das manifestações, como em Hong Kong, onde foram protagonistas por quatro meses de manifestações de pró-democracia.

Redes sociais

A maioria desses movimentos nasceu nas redes sociais, que se tornaram vetores cruciais da mobilização, especialmente desde a Primavera Árabe (dezembro de 2010) e do movimento Occupy Wall Street (setembro de 2011).

Essas "ações conectadas" são diferentes das formas tradicionais de mobilização, por iniciativa de um partido, sindicato ou associação, resume Arnaud Mercier, professor de comunicação da Universidade de Paris-II Panthéon-Assas.

"As redes sociais permitem que pessoas que não se conhecem se mobilizem por uma causa específica. Permitem a circulação de informações, convocam comícios e dão instruções, se necessário", acrescenta.

Novas táticas

Durante os cem dias de manifestações de pró-democracia em Hong Kong, os ativistas implementaram uma série de métodos engenhosos para impulsionar seus movimentos além das barricadas, desde shows com ponteiros a laser até filas de manifestantes.

Os manifestantes também encontraram maneiras criativas de realizar concentrações proibidas fingindo olhar vitrines, organizar piqueniques ou se reunindo para encontros religiosos.

O slogan "seja água", um princípio de imprevisibilidade usado pela lenda do Kung Fu Bruce Lee, também incentiva os manifestantes a se moverem constantemente para evitar prisões em massa.

A hashtag #BeWater, difundida no Twitter, chegou até Barcelona, onde os manifestantes aplicaram a mesma tática ao invadir o aeroporto da cidade, o segundo mais importante da Espanha, causando o cancelamento de 150 voos e enfrentamentos com a polícia que deixaram 115 feridos.

Para especialistas em movimentos sociais, os manifestantes aprenderam com o fracasso de protestos estáticos, como "Occupy Wall Street" em Nova York em 2011, mais fácil de controlar pela polícia. / AFP

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