Do Curdistão ao Texas, solidariedade à Escócia

Separatistas de todos os continentes acompanham resultado de plebiscito escocês

KATRIN, BENNHOLD, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2014 | 02h01

Para Kurt Ryon, prefeito de Steenokkerzeel, um vilarejo flamengo 16 quilômetros ao norte de Bruxelas, assistir à campanha de independência da Escócia foi como acompanhar uma disputada partida de futebol. "O time deles estava perdendo no primeiro tempo e na maior parte do segundo", disse ele. Ryon, que deseja ver sua Flandres separar-se da Bélgica, torcia para que a Escócia fizesse o mesmo com a Grã-Bretanha e, como um torcedor dedicado, ele tinha todos os acessórios: uma camiseta da campanha do "yes", pró-independência da Escócia; uma coleção de bótons do "yes" em sua jaqueta jeans e quantidades copiosas de uma cerveja preparada especialmente pelos nacionalistas flamengos para expressar sua solidariedade. O rótulo diz "Ja!" ("sim" em flamengo) ao lado da bandeira escocesa.

Da Catalunha ao Curdistão, passando por Quebec, movimentos nacionalistas e separatistas da Europa e de outros continentes acompanharam atentamente o plebiscito de independência da Escócia - às vezes mais do que os próprios britânicos. Curiosa coleção de esquerda e direita, ricos e pobres, e representantes dos mais variados setores da sociedade, esses movimentos tinham esperança de que sua ambição comum de mais autodeterminação ganhasse força com uma Escócia independente.

No País Basco, comunidade autônoma do norte da Espanha, o líder do partido nacionalista, do governo, teria vestido um kilt e dito que os bascos preferem fazer parte de uma Escócia independente do que continuar parte da Espanha, que descartou a possibilidade de uma votação. No Vêneto, região do norte da Itália, os nacionalistas realizaram um plebiscito online inspirado pelos escoceses e agora afirmam que nove em cada 10 habitantes desejam a autonomia.

Um grande número de catalães, sul-tiroleses, corsos, bretões, frígios e "sueco-finlandeses" foi para a Escócia para assistir à votação. Até a Baviera (que descreve a si mesma como "sétima maior economia da Europa") enviou delegação.

"Seria um precedente muito importante", disse Naif Bezwan, da Universidade Mardin Artuklu, na parte curda da Turquia. Do outro lado da fronteira com o Iraque ("a fronteira entre Curdistão e Curdistão", como descreve Bezwan), onde uma confluência de guerras, disputas por petróleo e caos político deram nova vida ao debate envolvendo a secessão, os curdos anseiam pela oportunidade de uma separação pelo voto.

A história traz poucos exemplos de países que se separaram de maneira consensual. O divórcio de veludo entre checos e eslovacos em 1993 é um deles e o plebiscito de independência da Noruega em relação à Suécia em 1905 é outro. Na maioria dos casos, os países entram em guerra por suas fronteiras. Os EUA travaram uma guerra para preservar sua união. A Turquia combateu os nacionalistas curdos por décadas e até hoje nega-lhes o direito ao ensino em língua curda. Kosovo declarou sua independência da Sérvia somente após uma guerra nos anos 1990.

O presidente russo, Vladimir V. Putin, que anexou a Crimeia após uma invasão furtiva e um plebiscito na península, acusado de auxiliar agressivamente os separatistas no leste da Ucrânia, tem declarado seu apoio à independência escocesa. Mas sua defesa da autodeterminação é seletiva: nas repúblicas russas da Chechênia e do Daguestão, ele empregou violência selvagem para esmagar separatistas muçulmanos.

Em certos casos, o plebiscito na Escócia alimentou novas esperanças, bastante improváveis, entre grupos separatistas menores. Quando o presidente do Movimento Nacionalista do Texas, Daniel Miller, foi convidado este ano a visitar a Universidade de Stirling, na Escócia, disse que os escoceses estavam preparando o terreno para um Texas independente. Em outros, a votação conferiu nova energia a debates de considerável importância geopolítica.

Em Taiwan, que a China diz ser parte do seu território por mais que Taiwan seja independente na prática e tenha sua própria moeda, Exército e governo democraticamente eleito, alguns torceram para que um "sim" da Escócia levasse a uma deliberação mais cuidadosa em relação ao futuro da ilha.

No escritório um pouco decadente da Aliança Livre Europeia em Bruxelas, que reúne 40 partidos representando as "nações sem Estado" da Europa, um movimentado mapa mostra como seria a Europa se todos eles se tornassem independentes. François Alfonsi, presidente da aliança e corso orgulhoso reconhece que haveria certa bagunça, mas "a democracia é bagunçada e é de democracia que a Europa precisa".

Para ele, a autodeterminação "serve para aproximar as políticas dos povos". Do outro lado da cidade, Mark Demesmaeker, membro flamengo do Parlamento Europeu que decorou seu escritório com uma bandeira escocesa e conserva uma cópia do livro branco escocês a respeito da independência, fala em "Estados-nação fracassados".

Para ele, a Grã-Bretanha fracassou em dar aos escoceses e galeses a devida representação no parlamento, e a Espanha falhou em dar a democracia aos catalães e bascos ansiosos por seu próprio plebiscito de independência.

Muitos nacionalistas dizem que a Escócia venceu independentemente do resultado. "Eles tiveram a oportunidade de decidir o próprio futuro", disse Androni Ortuzar, presidente do Partido Nacionalista Basco, do governo, que usou um kilt no carnaval de 2012 para comemorar o anúncio de um plebiscito escocês naquele ano. "Autodeterminação é isso", disse ele. "É tudo que pedimos." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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