Do exílio para um Iraque sem os EUA

A volta do carismático clérigo xiita Moqtada al-Sadr, que estava exilado no Irã havia 3 anos, definirá o futuro de um Estado iraquiano independente

ANTHONY SHADID, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2011 | 00h00

Eram menos de sete linhas manuscritas em árabe num pequeno pedaço de papel, exibindo seu selo. Mas, com elas, Moqtada al-Sadr - filho de um aiatolá reverenciado e grande inimigo da ocupação americana - deixou claro na quinta-feira que estava novamente encarregado de um grupo que moldará o Iraque, preparando-o para a saída dos EUA.

"A falta de disciplina de alguns de vocês enquanto eu executava meus rituais religiosos me incomodou", reclamou o líder xiita ao retornar.

Desde que Sadr retornou de mais de três anos de exílio no Irã, proliferam os sinais da nova face de seu movimento. Ele é uma figura rara no Iraque, que carrega tanto a mística religiosa quanto a autoridade política, respeitada por um movimento de base com um senso agudo da rua, e pela notável habilidade de se moldar como oposição, mesmo quando desempenha o papel de fazedor de reis - como agora.

"Agora que voltou, ele pode começar a resolver nossos problemas", disse Sadeq Ibrahim, de 38 anos, um veterano da dissolvida milícia de Sadr. "Ele é o homem que pode fazê-lo - um líder religioso e político - e é preciso ambos para resolver os problemas do Iraque."

Um fervor como esse não é novo para um movimento populista que surgiu após a invasão americana como uma das forças mais imprevisíveis no Iraque, construída em torno dos seguidores do pai de Sadr, morto em 1999. Em 2004, sua milícia por duas vezes combateu as forças americanas, e sua linguagem , tanto religiosa quanto nacionalista, continua sendo decididamente anti-americana.

"Canalha". Mas hoje o movimento se sofisticou e se recuperou das derrotas militares em 2008 para levar 40 cadeiras no Parlamento e oferecer um apoio decisivo para a volta do primeiro-ministro Nuri al-Maliki ao poder no mês passado.

Muitos no Iraque viram o sucesso do grupo como um sinal de seu amadurecimento. Em Washington, a reação à volta de Sadr foi moderada: em 2004, um porta-voz americano chamou Sadr de "pequeno canalha" e, na quarta-feira, o porta-voz do Departamento de Estado, Phillip J. Crowley, o qualificou de "líder de um partido que ganhou algumas cadeiras."

Na verdade, ele não é nenhuma das duas coisas, como ficou evidente na quinta-feira. Sadr seguiu para seu escritório no estilo de um potentado de Bagdá, num comboio de BMWs prateados escoltado por veículos utilitários. Depois, numa mesquita, seus seguidores falaram em termos milenaristas de Sadr como um salvador, um místico, um arauto da vinda do imã oculto, que se revelará no fim dos tempos trazendo ordem e justiça e vingando-se dos inimigos de Deus. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM BAGDÁ

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