Do Iêmen, Al-Qaeda ameaça região

Rede terrorista já controla o interior do país e caminha para transformar o território iemenita no novo santuário do terror islâmico

Gustavo Chacra, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

Um governo fraco, às voltas com milícias separatistas, uma população religiosa, conservadora e armada, desemprego na casa dos 40%, tráfico de drogas em expansão e um sistema tribal cujo poder se sobrepõe ao do Estado. Isolado e pobre, o Iêmen converte-se no novo foco da Al-Qaeda.

Em vilas do interior, a rede terrorista já opera com liberdade, a ponto de a missão iemenita na ONU aconselhar estrangeiros a não viajar para um raio além de 30 quilômetros ao redor da capital, Sanaa. Veteranos do Iraque e do Afeganistão juntam-se a jihadistas sauditas e ex-prisioneiros de Guantánamo neste país considerado o mais pobre do mundo árabe, localizado na ponta da Península Arábica, a poucos quilômetros da Somália - outra nação que atrai fundamentalistas.

"O governo do Iêmen não tem capacidade de controlar todo o território, o que dá à Al-Qaeda um refúgio do qual ela pode organizar ataques ao redor do mundo", disse ao Estado Christopher Boucek, analista do Carnegie Endowment. "A raiz do problema está no colapso econômico. O Iêmen vê acabar as suas reservas de petróleo e não possui opções para criar uma economia "pós-petróleo" sustentável."

O crescimento da Al-Qaeda no país não surpreende. A rede terrorista comandada por Osama bin Laden realizou no Iêmen o primeiro atentado que lhe deu projeção internacional, em outubro de 2000 - um ataque com uma lancha-bomba contra o destroier USS Cole, que matou 17 americanos, no Golfo de Áden.

Desde então, vários episódios ligando o Iêmen a ações terroristas - principalmente sequestros e mortes de estrangeiros que se aventuraram pelo interior do país - foram registrados. Nos últimos meses, o Iêmen entrou definitivamente no radar dos serviços antiterror do Ocidente. Primeiro, quando veio à tona que um clérigo americano de origem iemenita, Anwar al-Awlaki, servia de confidente do major Nidal Malik Hasan, que matou 13 pessoas na base militar de Fort Hood, no Texas, em novembro.

Depois, no mês seguinte, quando um estudante nigeriano tentou explodir um avião que pousava no aeroporto de Detroit no Dia de Natal. O terrorista, que foi detido, disse ter recebido os explosivos no Iêmen, onde havia estudado árabe meses antes.

Mesmo antes desses episódios, consultorias de risco político como a Eurasia e a Stratfor já advertiam seus clientes de que a Al-Qaeda na Península Arábica oferecia mais riscos do que os braços da organização no Afeganistão, no Iraque e no Paquistão.

Durante uma semana, a reportagem do Estado conversou com empresários, médicos, jornalistas e comerciantes. Todos condenam a rede de Bin Laden, mas admitem que há o risco de a Al-Qaeda transformar o país num santuário do terror - como o Afeganistão do Taleban.

Acordo rompido. Uma das razões disso é a ausência do Estado no interior, onde o conservadorismo e o atraso são maiores do que nos centros urbanos. As áreas rurais são controladas por tribos que não raro apóiam-se na Al-Qaeda para obter recursos.

Até os episódios do fim do ano passado, o presidente Abdullah Saleh mantinha uma espécie de acordo com a rede terrorista. O regime evitava combater a organização no interior e a Al-Qaeda não levava adiante atentados. "A Al-Qaeda sabe como jogar com essa situação", afirma o advogado Saleh Adani. "Se a situação econômica continuar ruim, eles terão um ambiente propício."

Esse acordo tácito era de interesse do governo porque seu objetivo prioritário é combater os milicianos houthis, de uma tribo que segue uma corrente islâmica próxima à dos xiitas. O Exército também precisava destinar recursos para lutar contra movimentos separatistas do sul do Iêmen - o país se unificou em 1994.

As Forças Armadas conseguiram eliminar alguns líderes do grupo. O risco, agora, é que as novas operações contra a Al-Qaeda e o apoio americano tenham um efeito inverso, com a rede ganhando adeptos locais.

A Al-Qaeda também pode se aproveitar das tribos para agir contra o governo. No episódio do levante dos houthis ficou claro as dificuldades de derrotar uma milícia no interior. A vitória ocorreu apenas com a ajuda dos americanos - contrários à aliança dos houthis com o Irã - e dos sauditas, irritados com os rebeldes que cruzava sua fronteira.

Para a Al-Qaeda, o episódio serviu de lição. Se o governo de Saleh ficar ao lado dos americanos, o grupo pode atrair as milícias por meio do comércio de drogas, dinheiro e apoiando causas, como o separatismo do sul. "O combate aos houthis é mais urgente do que à Al-Qaeda. Eles mostraram que têm armas em um conflito que durou seis meses. Qualquer tribo pode fazer o mesmo - e a Al-Qaeda tem conexão com muitas tribos", diz o engenheiro Taraf Musa. "Juntos, serão um adversário ainda pior."

Os iemenitas em Sanaa, em geral, têm medo da rede terrorista, apesar de o conservadorismo religioso ter vários defensores. "A Al-Qaeda atua em vilarejos. Somos contra eles, pois atacam crianças", disse um empresário.

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