Do lado turco da fronteira, rebeldes tramam o fim de Assad

Do lado turco da fronteira, rebeldes tramam o fim de Assad

Opositores sírios preparam-se para combater um inimigo determinado e mais forte

Lourival Sant'Anna, enviado especial, O Estado de S. Paulo

10 de março de 2012 | 17h42

O Rio Orontes, que atravessa a Síria e contorna sua fronteira noroeste com a Turquia, tem outro nome em árabe: Al-Assi, que significa “O Rebelde”. Isso porque, ao contrário dos outros rios do Levante, ele corre do sul para o norte. Em Homs, no centro-oeste da Síria, o rio forma uma represa, que abastece a cidade. Dizem que a rebeldia dos moradores de Homs vem de beber a sua água.

De junho para cá, 11 mil civis cruzaram o rio, frequentemente à noite, fugindo dos combates ou da perseguição das forças de segurança. Outros mil militares vieram se reagrupar do lado turco, formando o Exército Livre da Síria (ELS).

Os civis – muitos deles em atividades de apoio aos rebeldes armados – vivem em tendas brancas do Crescente Vermelho turco, espalhadas por seis campos de refugiados ao longo da fronteira e às margens do rio. Os militares mantêm um acampamento próprio, no qual estão incomunicáveis, sob vigilância das autoridades turcas, que lhes oferecem abrigo, mas evitam envolvimento no conflito com o ex-aliado.

Num episódio carregado de simbolismo, as autoridades sírias abriram as comportas de uma represa do seu lado da fronteira para alagar um dos acampamentos, o de Bohsin, onde vivem 2 mil pessoas – um terço delas, crianças, das quais 50 bebês que nasceram no acampamento. Os moradores das 50 barracas que submergiram foram transferidos para outras já superlotadas e os refugiados seguem suportando o frio rigoroso do inverno. 

Historicamente, a porosa fronteira tem sido o cenário de contrabando de combustível, vacas e outros produtos, que são mais baratos na Síria do que na Turquia. Por essas rotas têm passado nos últimos meses os feridos, que nos hospitais sírios são tratados como prisioneiros políticos. Ao cruzarem a fronteira, embarcam em ambulâncias turcas que os levam ao hospital de Antakya, a capital da Província de Hatay, que faz fronteira com a Síria.

No sentido inverso, são levados esparadrapos e gaze para conter sangramentos, alimentos e as poucas armas e munições que os oposicionistas conseguem adquirir em Hatay, com dinheiro arrecadado na comunidade síria no exterior. 

Controle - Nas últimas duas semanas, o Exército sírio tem aprimorado seu controle sobre o norte do país e procurado inibir o trânsito na fronteira com a Turquia, que serve de cordão umbilical para os rebeldes. O movimento de pessoas e suprimentos continua, no entanto, ainda que em ritmo reduzido. Na semana retrasada, 60 desertores do Exército cruzaram a fronteira, segundo os rebeldes. Cerca de 800 refugiados civis atravessaram na semana que passou.

A arma mais comum entre os rebeldes são espingardas de 12 mm, usadas pelos habitantes locais para caçar aves. Diante da forte demanda, seu preço duplicou, e os rebeldes as conseguem atualmente por cerca de US$ 500. Na Síria, alguns militares têm desviado fuzis Kalashnikov das bases do Exército e vendido a atravessadores civis, que pedem US$ 2 mil por unidade. 

Alguns oficiais da minoria alauita, a mesma do presidente Bashar Assad, vendiam munição aos combatentes, mas foram presos, contaram ao [BOLD]Estado[/BOLD] rebeldes da maioria sunita, sob a condição de não serem identificados. Segundo eles, um coronel do Exército que comanda um posto de controle fronteiriço na cidade de Derkush teria “colocado à venda” toda a sua unidade, com mais de 100 soldados, 4 tanques e 20 veículos militares. Além de US$ 300 mil, ele teria pedido proteção para sua família refugiar-se na Turquia. 

Debandada - Na madrugada de sexta-feira, quatro generais cruzaram a fronteira. Em seguida, instalaram-se no acampamento de Apaydin, que abriga os cerca de mil militares. Com isso, o ELS passou a contar com sete generais. Desses, seis estão no acampamento. O sétimo, Adnan Farzat, está em Homs, comandando tropas rebeldes, segundo os oposicionistas. 

Estima-se que os rebeldes contem hoje com 20 mil combatentes dentro da Síria – enquanto o Exército tem 300 mil homens. Mas o que torna essa guerra mais assimétrica é o armamento. O ESL dispõe de uns poucos fuzis e foguetes portáteis. O Exército sírio tem empregado armamento pesado, especialmente tanques, além de milhares de soldados com fuzis e granadas. 

O regime sírio tem se preparado para a eventualidade da criação de uma zona de exclusão aérea, nos moldes da que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) impôs no ano passado na Líbia. Seu Comando de Defesa Aérea, que segundo a consultoria americana Stratfor possui 54 mil homens, está sendo dotado de novos sistemas de mísseis antiaéreos, fornecidos pela Rússia. 

Esse é um dos principais motivos pelos quais os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França, entre outros, relutam em levar adiante a ideia de uma intervenção militar, defendida pelo senador republicano John McCain e pelos governos da Arábia Saudita e do Catar. O outro é o impacto político e econômico que uma guerra em grande escala na Síria – aliada do Irã, da Rússia e da China – teria sobre a região.

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