Sergio Flores/ The New York Times
Sergio Flores/ The New York Times

Do muro na fronteira a menos impostos, Trump cumpriu suas promessas?

Há quatro anos, Donald Trump foi eleito presidente após fazer uma série de promessas; veja o que aconteceu com algumas delas

The New York Times, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2020 | 21h00

"Eu iria revogar e substituir essa grande mentira, o Obamacare", disse Donald Trump durante seu discurso inicial. “Gostaria de construir um grande muro, e ninguém constrói muros melhor do que eu.” Ao contrário de sua campanha de 2020, que se baseia em vagas promessas de "vencer, vencer, vencer", a campanha de Trump, quatro anos atrás, foi baseada em promessas de cortes de impostos e até de nomeação de juízes com credenciais conservadoras.

Ele cumpriu as promessas que o ajudaram a chegar até aqui? E quanto seus apoiadores se importam? Uma pesquisa recente da Universidade de Nova York descobriu que aqueles que votaram em Trump em 2016 pensaram que ele havia quebrado menos de uma promessa. Aqueles que votaram em Hillary Clinton disseram que, de cinco promessas, ele quebrou quatro.

Na realidade, Trump quebrou cerca de metade das 100 promessas de campanha, de acordo com um rastreador da PolitiFact. O site de checagem de fatos não mede a intenção, apenas resultados verificáveis. Em média, os presidentes quebram cerca de um terço de suas promessas. 

Construir um muro e fazer o México pagar

Erguer uma barreira ao longo da fronteira sudoeste foi o grito de guerra definidor da campanha de 2016 de Trump. Ele prometeu construir 1.600 quilômetros de muro de fronteira e repassar o custo para o México.

Nos últimos quatro anos, a administração Trump construiu 597 quilômetros de barreiras de fronteira. E está a caminho de chegar a 644 quilômetros na próxima semana. No entanto, todas as novas barreiras, exceto 25 quilômetros, substituem ou reforçam as estruturas existentes.

Isso não impediu Trump de proclamar o muro como uma missão cumprida de campanha. “E, a propósito, o México está pagando”, disse Trump em um comício em 12 de outubro em Sanford, Flórida. “Eles odeiam dizer isso: o México está pagando por isso.”

Na verdade, o México não está pagando. As barreiras que foram construídas ao longo da fronteira até agora foram pagas pelos contribuintes americanos. O fato de Trump usar o muro como parte de seu discurso de campanha “Promessas Feitas, Promessas Mantidas” não parece incomodar seus apoiadores mais leais. “Vejo a construção do muro como algo simbólico”, disse Amad Zarak, 20, estudante em Gainesville, Flórida. “É uma manifestação física da política de restrição da imigração.” No geral, “ele está tentando cumprir suas promessas”.

O Departamento de Segurança Interna argumentou que as novas barreiras reduziram o pessoal necessário para preencher certos setores e reduziram a imigração não autorizada. No primeiro ano de Trump no cargo, as travessias ilegais de fronteira diminuíram para o ponto mais baixo desde os anos 1970, mas depois aumentaram para o ponto mais alto em uma década no ano fiscal de 2019, antes de diminuir novamente este ano durante a pandemia.

Nomear juízes conservadores

Com três juízes da Suprema Corte e 25% do judiciário federal agora composto por nomeados de Trump, de acordo com dados de Russell Wheeler, um especialista em judiciário da Brookings Institution, o presidente teve mais sucesso nesta promessa de campanha do que talvez em qualquer outra.

Sua campanha se gaba de ter invertido o saldo de três tribunais de apelação federais e deslocado nove tribunais de apelação para a direita. Sua nomeação da juíza Amy Coney Barrett nas semanas anteriores à eleição poderia reformular os direitos ao aborto, a lei de imigração e o poder regulatório do governo. Confirmar um juiz da Suprema Corte tão perto de uma eleição foi sem precedentes, e os democratas enquadraram isso como uma tomada de poder ilegítima pelos republicanos.

Revogar e substituir a Lei de Assistência Acessível

A campanha republicana de anos para revogar e substituir a Affordable Care Act (ACA), ou Lei de Assistência Acessível, não teve sucesso no primeiro ano da presidência de Trump, quando o senador John McCain, republicano do Arizona, deu o voto decisivo contra ela. Os democratas recuperaram a maioria na Câmara dos Deputados após as eleições de meio de mandato de 2018, mas condenaram qualquer tentativa legislativa subsequente de derrubar toda a lei.

Trump não se esqueceu do papel de McCain e às vezes relembra do voto negativo do candidato republicano de 2008 antes de reunir multidões. O presidente e seu partido ainda estão tentando. Os legisladores republicanos eliminaram o mandato individual do Affordable Care Act como parte dos cortes de impostos de 2017, e a administração Trump está argumentando perante a Suprema Corte que toda a lei de saúde deveria cair com ela.

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Os apoiadores de Trump não o culpam por não ter conseguido destruir a conquista do ex-presidente Barack Obama. “Acho que ele terá problemas porque terá que passar pelo Congresso. Estou um pouco desapontado por isso ainda não ter acontecido, não sei se é culpa dele ou não”, disse Mike Vorwaller, um gerente de projeto de 42 anos de uma empresa de engenharia em St. Johns, Flórida. “Eu gosto que ele tenha removido o mandato individual.”

Corte de impostos

Os cortes de impostos de 2017 são uma das maiores conquistas legislativas do primeiro mandato de Trump, e comemorada por seus apoiadores. “Os negócios estão crescendo. Estamos voltando ainda mais fortes depois da pandemia”, disse Justin Davies, proprietário de uma pequena empresa em Rutherfordton, Carolina do Norte. “Os cortes de impostos de Trump nos pouparam algo entre US$ 20.000 a US$ 30.000 por ano em impostos.”

Alguns críticos, no entanto, notaram que o corte final de impostos que Trump sancionou foi muito menor do que o que ele prometeu como candidato. O Tax Policy Center, administrado pela Brookings Institution, estimou que era apenas um quarto do plano que Trump fez na campanha há quatro anos.

Trump disse que cortaria a principal alíquota de imposto de renda corporativo de 35% para 15%, por exemplo. Sua conta final baixou para 21%. Essas nuances, no entanto, foram deixadas de fora de seus comícios, onde Trump tem dito a seus apoiadores (falsamente) que ele conseguiu aprovar o "maior corte de impostos da história".

Enquanto a maioria dos americanos conseguiu um corte de impostos, os grandes ganhadores receberam 60% da economia total de impostos. Isso está um tanto em desacordo com a promessa feita no "contrato com o eleitor americano" de Trump de que as "maiores reduções de impostos são para a classe média".

Renegociar acordos comerciais

Durante a campanha de 2016, Trump rompeu com a ortodoxia bipartidária e questionou o apoio de décadas de Washington aos acordos de livre comércio. Ele prometeu renegociar o Acordo de Livre Comércio da América do Norte ou retirá-lo inteiramente, saindo da Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês) e aumentando as tarifas.

Ele cumpriu essas promessas e se retirou da TPP em seus primeiros dias no cargo. Trump travou uma guerra comercial com a China e impôs tarifas sobre várias importações, deixando os consumidores americanos a arcar com o peso financeiro. Ele assinou o Acordo Estados Unidos-México-Canadá, que incluía mudanças significativas, mas também uma série de atualizações simples do Nafta de 25 anos.

Embora alguns especialistas duvidem que as políticas comerciais de Trump tenham sido economicamente benéficas - com a conservadora Tax Foundation estimando que as tarifas geraram receita, mas salários reduzidos, produto interno bruto e crescimento do emprego - os apoiadores ficaram maravilhados.

“Se você quiser vir para nossa pequena cidade, vou mostrar todas as nossas placas de contratação em todo o condado. Estamos nos recuperando muito rápido ”, disse Davies. “Há empregos em todos os lugares, especialmente antes da pandemia. Na minha pequena cidade de 20 mil habitantes, havia, ao mesmo tempo, 1.500 vagas. A Câmara de Comércio me disse isso.”/ TRADUÇÃO DE ANDREZA GALDEANO

 

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