Dobra número de judeus que deixam a França

Ameaça de terrorismo islâmico e crescimento do partido de extrema direita Frente Nacional leva cerca de 7 mil a migrarem para Israel

ANDREI NETTO, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 02h00

PARIS - O medo do terrorismo islâmico, dos atentados à liberdade religiosa e o sentimento de um antissemitismo crescente, além da crise econômica, fizeram com que dobrasse em 2014 o êxodo de judeus franceses que imigram para Israel: foram 6,6 mil contra 3,2 mil em 2013. Especialistas estimam que o número ultrapassará 10 mil este ano, após os ataques jihadistas de janeiro que deixaram quatro judeus mortos em um mercado kosher em Paris.

Dados da Agência Judia, órgão do governo de Israel que facilita a migração, não deixam dúvidas sobre a amplitude do fenômeno. A França, maior comunidade de judeus da Europa e terceira maior do mundo, atrás de Israel e dos Estados Unidos, tornou-se em 2014 o maior país de êxodo no mundo. Foram 6.658 os judeus que saíram do país ou 130% mais do que em 2013. A maioria faz a "alyah" (ascensão, em hebreu) para Tel-Aviv e cidades como Ashdod, Ashkelon, Netanya e Jerusalém.

Membros da comunidade e especialistas ouvidos pelo Estado lembram que as perspectivas econômicas de Israel - crescimento de 4,5% em 2015 - são uma atração a mais, mas as razões essenciais da imigração são outras. A primeira é histórica: Israel é a "terra prometida", destino de judeus que optam pela "alyah" por razões religiosas ou políticas desde o século 19.

Além disso, há fatores peculiares à França, como o crescimento do partido de extrema direita Frente Nacional, de Marine Le Pen, que não faz questão de esconder o antissemitismo.

O principal fator, porém, são os eventos violentos que causaram traumas na comunidade e deixaram a clara impressão de que a radicalização de extremistas muçulmanos tem judeus como um de seus alvos. A morte de Ilan Halimi em 2006, sequestrado e torturado pela Gangue de Bárbaros apenas porque era judeu, foi o primeiro caso.

Seis anos depois, o assassinato de três crianças e um adulto em uma escola judia de Toulouse e, em maio passado, o ataque ao Museu Judeu de Bruxelas, que deixou quatro mortos, reforçaram o temor. O receio ficou evidente em 9 de janeiro, quando um mercado comunitário judaico de Paris foi atacado por Amedy Coulibaly, em um ataque que deixou mais quatro judeus mortos.

De acordo com dados do Conselho Representativo de Instituições Judaicas da França (CRIF), esses ataques são apenas a ponta do iceberg. Em 2014, 851 atos antissemitas foram registrados no país - o dobro de 2013. Esse total representa 51% de todas as agressões racistas verificadas no ano passado, embora a comunidade judaica - entre 500 mil e 600 mil pessoas - represente apenas 1% da população francesa.

"Houve, de fato, um aumento importante do número de judeus da França que partiu para Israel em função dos atos antissemitas que ocorreram nos últimos anos", diz Elie Korchia, vice-presidente do Consistório Judaico de Paris. "Há um trauma no fato de que o jihadismo começa a atingir a França. Pessoas que pensavam em imigrar por razões econômicas, ou de família, aceleram seus planos."

Somados, medo e esperança de uma vida melhor em Israel passaram a motivar jovens e famílias inteiras a migrar. Cliente do mercado atacado por Coulibaly em Paris, o programador Jérémie Brami, de 22 anos, é um dos que parece decidido a partir. "Aquele episódio foi muito duro. Eu poderia ter estado no mercado, porque alguns minutos depois iria para lá. Essa violência poderia ter me atingido e poderia ter acontecido a qualquer um de nós, clientes judeus. É muito grave", diz ele.

Chocado, ele só não partiu pelas dificuldades inerentes da imigração - trabalho, família e amigos. "Uma coisa é certa: tenho vontade de partir. Se será em um ou dois anos, não sei", diz o jovem, que tem amigos muçulmanos e se sente tão judeu como francês. Para Brami, se a situação não mudar, entre 80% e 90% da comunidade "partirá em dois anos". "Toda a comunidade judia da França pensa nisso. Muitos têm muita vontade de partir, porque têm medo ou se sentem melhor lá."

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