Documentos dão novas provas de que Suíça colaborou com nazistas

Governo sabia das atrocidades na Alemanha, mas manteve fronteiras fechadas e devolveu judeus que tentavam fugir

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2013 | 02h08

Documentos revelaram que o governo suíço sabia da existência de campos de concentração na Alemanha desde 1942 e, mesmo assim, manteve suas fronteiras fechadas e devolveu aos nazistas pessoas que tentavam fugir do país. A revelação aprofunda o mal-estar em relação ao papel que o país manteve durante a 2.ª Guerra. Oficialmente, a Suíça diz que era neutra, o que as mais recentes descobertas desmentem.

Segundo documentos revelados pela imprensa suíça, o governo sabia dos massacres e das execuções de judeus nos campos de concentração em 1942. Os telegramas foram publicados no domingo, no mesmo dia em que o presidente suíço, Ueli Maurer, fez um discurso para marcar o Dia do Holocausto e manteve a tese de que o país foi "refúgio" de milhares de pessoas.

Durante a 2.ª Guerra, diplomatas suíços recolheram centenas de telegramas e cartas que contavam a situação detalhada nos campos de concentração. Alguns deles foram transformados em relatórios internos e repassados ao Conselho Federal, órgão que serve de poder Executivo na Suíça. Até mesmo fotos chegaram ao conhecimento do governo.

"A partir de maio de 1942, informações sobre assassinatos de judeus chegaram a Berna", confirmou Sascha Zala, diretor do Departamento Suíço de Documentos Diplomáticos. Segundo ele, parte dos telegramas com informações chegou ao então ministro da Justiça, Eduard von Steiger.

Apesar disso, em agosto de 1942, o Executivo suíço optou por manter sua política de rejeitar refugiados, mesmo que isso significasse uma ameaça às vidas deles. Inicialmente, o argumento para manter as fronteiras fechadas era o de que um fluxo de refugiados poderia ter um impacto econômico. No entanto, à medida que os anos passaram, documentos revelaram que o racismo faz cada vez mais parte do debate.

Enquanto os documentos eram publicados, Maurer mantinha a versão oficial de neutralidade do país. Em uma mensagem colocada no site do governo, ele insistiu que a Suíça foi "refúgio", em um período negro, para o "continente europeu". Para ele, a Suíça foi o "país da liberdade, ordenado pelo direito graças ao engajamento de uma geração inteira de mulheres e homens corajosos".

Acerto de contas. Em um comunicado conjunto, diversas associações de judeus atacaram Maurer por apresentar "as coisas de uma forma simplista e positiva". "O presidente oculta as fraquezas e os erros da política suíça durante a 2.ª Guerra", declararam as entidades judaicas. "É lamentável que um presidente, hoje, não julgue útil aprofundar o questionamento e permitir que a Suíça possa lidar com seu passado."

Para o historiador Hans-Ulrich Jost, "muitos na Suíça ainda não querem lidar ou aceitar o passado". Em 2002, um informe produzido por uma comissão independente constatou que parte do governo e várias empresas suíças foram "longe demais" em sua cooperação com o regime nazista durante o conflito.

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