Sergei Karpukhin / Reuters
Sergei Karpukhin / Reuters

Documentos divulgados pelo FBI acusam ex-assessor de Trump de envolvimento com Kremlin

Presidente americano diz que escutas telefônicas de Carter Page são parte de uma conspiração partidarista e ilegal; ex-assistente nega as acusações e afirma que nunca foi ‘agente de um poder estrangeiro’

O Estado de S.Paulo

22 Julho 2018 | 16h34

WASHINGTON - O FBI divulgou no sábado, 21, documentos relacionados à vigilância de Carter Page, ex-assessor de campanha de Donald Trump, como parte de uma investigação sobre o envolvimento dele com o governo russo para prejudicar as eleições presidenciais de 2016. Os textos foram enviados a veículos de imprensa que solicitaram acesso por meio da Lei de Liberdade de Informações.

O presidente dos EUA reagiu neste domingo, 22, qualificando as escutas telefônicas de seu ex-assistente Carter Page como parte de uma conspiração partidarista e ilegal, porque algumas das informações tratadas pelo FBI tinham origem em fontes democratas.

"Pode-se dizer cada vez mais que a campanha presidencial de Trump foi ilegalmente espionada (vigiada) para que a desonesta Hillary Clinton obtivesse benefícios políticos", escreveu o presidente em sua conta no Twitter, sem dar mais detalhes a respeito.

Page, assessor de política externa da equipe de Trump durante a campanha presidencial de 2016, é mencionado diretamente em um documento do organismo encarregado de controlar a vigilância de agentes estrangeiros em solo americano, a Foreign Intelligence Surveillance Court, datado de outubro de 2016, segundo elementos publicados pelo jornal The New York Times.

"O FBI acredita que Page foi alvo de recrutamento por parte do governo russo", afirma o texto escrito por um funcionário da polícia federal americana. O relatório foi publicado pouco mais de uma semana depois que o procurador especial encarregado de investigar as ingerências do Kremlin nas eleições americanas acusou 12 agentes da inteligência russa de terem hackeado os computadores do Partido Democrata.

A vigilância sobre Carter Page se tornou em fevereiro alvo de uma forte rivalidade entre democratas e republicanos no Congresso. Os republicanos redigiram uma nota na qual afirmam que o FBI baseava a vigilância a Page em uma missão financiada pelo Partido Democrata e a equipe de campanha de sua candidata, Hillary Clinton.  

Desafiando o diretor do FBI e o Departamento de Justiça, Trump liberou então a nota de cerca de quatro páginas, que se apoiavam no documento agora divulgado. A Casa Branca bloqueou em um primeiro momento a publicação de um texto de resposta proveniente dos democratas, segundo o qual a vigilância a Page "estava fundada em provas irrefutáveis e em um motivo razoável".

O New York Times informou que um juiz aprovou o documento inicial de escuta telefônica, uma autorização ratificada posteriormente em três oportunidades por outros magistrados.

No documento, redigido um mês antes da vitória de Trump, o FBI diz acreditar que "os esforços do governo russo são coordenados com Page e talvez com outros indivíduos associados à campanha do candidato #1", em referência ao republicano. "Page estabeleceu relações com funcionários do governo russo, incluindo agentes da inteligência", acrescenta o texto.

Defesa

Carter Page, que até agora não foi acusado formalmente, disse neste domingo à emissora CNN: “nunca fui agente de um poder estrangeiro". O ex-assessor de Trump afirmou que as alegações de que ele trabalhou em nome da Rússia como um agente ou conselheiro informal são “ridículas” e uma “verdadeira piada”.

A divulgação de documentos solicitados a Foreign Intelligence Surveillance Court é incomum em razão de seu caráter sigiloso. Por isso, alguns trechos foram censurados pelo governo. As passagens, no entanto, apontam a intenção do FBI de grampear as ligações telefônicas de Page durante as eleições por suspeitas de ligações com espiões russos.

Após a vitória de Trump, pedidos para a extensão do monitoramento foram enviados à corte secreta pelo vice-procurador-geral Rod Roseinstein, responsável pela supervisão das investigações sobre a suposta interferência russa nas eleições americanas.

Page morou na Rússia de 2004 a 2007, é um crítico das sanções impostas ao país pelos EUA e defende posições favoráveis a Moscou. Em 2013, o FBI concluiu que espiões russos tentaram recrutá-lo, mas ele não foi acusado porque a investigação estabeleceu que ele não sabia que seu contato era um agente secreto russo.

O dossiê usado no pedido para grampear Page foi elaborado pelo ex-espião britânico Christopher Steele, informante do FBI até 2016. Steele foi contratado por opositores republicanos de Trump e, depois, pela campanha de Hillary Clinton, para investigar a relação entre o presidente e a Rússia. Os republicanos dizem que o ex-espião não queria que Trump fosse eleito.

A minoria democrata no Comitê de Inteligência da Câmara contestou as conclusões do documento e acusou os republicanos de “politizarem” a ação das instituições responsáveis pela aplicação da lei nos EUA. Os democratas elaboraram um memorando próprio, no qual apresentam uma versão diferente, mas a divulgação simultânea de ambos os textos não foi aprovada pelos governistas. / AFP, AP, NYT e Washington Post

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