Documentos indicam que De la Rúa foi a favor de golpe

Novamente, a última Ditadura Militar (1976-83) está causando polêmica na Argentina. Desta vez, o retorno dos anos de terror aos corações e mentes dos argentinos foi causado pela entrega, por parte do Departamento de Estado dos Estados Unidos, de quatro caixas com 4.677 documentos - que foram secretos até esta semana - sobre a repressão durante o período militar. A informação dos documentos tem como origem basicamente a embaixada americana em Buenos Aires e envolve - de forma negativa - diversas figuras da política atual. Um dos atingidos é Fernando de la Rúa, presidente da Argentina entre 1999 e 2001, mas que na época do golpe era senador. De la Rúa tentou fazer sua carreira política, depois da Ditadura, como um lutador em defesa dos Direitos Humanos e do Estado de direito. No entanto, segundo os relatórios, durante uma conversa em outubro de 1977 em um café portenho com o conselheiro político da embaixada americana, William Hallman, De la Rúa teria afirmado que todas as ações dos militares até aquele momento eram "corretas". Hallman definiu De la Rúa como "o político civil que defende mais abertamente a Junta Militar". Além disso, sustentou que o então ex-senador era "um cínico". Os relatórios causaram polêmica porque indicam que vários políticos que, depois do fim da ditadura, apareceram como defensores incansáveis da democracia, eram na verdade subservientes aos militares. Os documentos foram entregues à Chancelaria argentina e abarcam um período desde os dias anteriores do golpe militar de 1976 até os primeiros meses do novo período democrático, durante o governo do ex-presidente Raúl Alfonsín (1983-99). Os relatórios indicam que, no início da ditadura, a embaixada dos EUA considerava o então ditador general Jorge Rafael Videla como "um moderado". Posteriormente, Videla seria acusado de ter iniciado o massacre sistemático de milhares de civis, entre os quais militantes de diversos partidos, integrantes da comunidade judaica, velhos e crianças. No total, calcula-se que a ditadura militar teria sido responsável pela tortura e desaparecimento de mais de 30 mil pessoas. Poucos dias depois do golpe, a embaixada dos EUA enviou a Washington um relatório afirmando que "este foi, provavelmente, o golpe melhor executado e mais civilizado na História dos golpes de Estado na Argentina". Videla, além de ser visto como o homem que "tem a chance de unir a Argentina, deter o terrorismo e colocar a economia em andamento", também era encarado como a pessoa que "resolverá rapidamente nossos problemas de investimentos (Exxon, Chase Manhattan, Standard Eletric, etc)". Um dos relatórios indica que, em 1980, os militares argentinos entraram em contato com a inteligência brasileira para pedir permissão para realizar uma operação no Rio de Janeiro, que consistiria no seqüestro de um casal argentino que participava do grupo de esquerda "Montoneros". Depois do seqüestro, o casal - Horacio Campiglia e Mónica Pinus de Binstock - foi levado a Buenos Aires, onde, depois de diversas sessões de tortura no quartel de Campo de Maio, foi assassinado.

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