Hamid Foorotan/REUTERS/ISNA
Hamid Foorotan/REUTERS/ISNA

Documentos secretos do Irã mostram detalhes de projeto nuclear do país

Jornal The Washington Post teve acesso a arquivos roubados por Israel e que detalham programa atômico iraniano

Joby Warrick / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2020 | 10h59

No início de 2003, um grupo de cientistas iranianos começou a vasculhar o país secretamente em busca de um lugar adequado para a construção de um túnel inusitado. Eles procuraram no vasto Deserto Lut do Irã até que finalmente encontraram o que lhes pareceu o lugar certo, uma zona morta semelhante à superfície de Marte, considerada um dos lugares mais quentes e secos da Terra.

As condições nesta parte do deserto salgado são tão extremas que praticamente nenhum animal ou vegetação consegue sobreviver ali. No entanto, vinha teoricamente a calhar para o que o Irã queria – uma câmara subterrânea para a primeira detonação nuclear do país. Foram tiradas fotografias e feitas medições e depois guardadas, à espera do momento em que a bomba estivesse quase pronta para um teste.

O túnel nunca foi construído, mas, 17 anos mais tarde, as imagens e as investigações ainda existem, como parte de uma quantidade preciosa de documentos nucleares iranianos secretos encontrados recentemente. Os registros, que estão sendo estudados nas principais capitais do Ocidente, chamam ainda mais a atenção enquanto os especialistas em armas procuram responder a uma interrogação repentinamente oportuna: Quanto tempo o Irã poderia levar para fabricar uma bomba nuclear, se decidisse fazê-la? 

Esta semana, um órgão de fiscalização nuclear da ONU informou que o Irã acelerou a produção de urânio enriquecido em meio às crescentes tensões criadas pela retirada do governo Trump do acordo nuclear iraniano, concluído em 2015. O aumento dos estoques  poderia dar a Teerã um componente fundamental para uma futura bomba – urânio físsil.  

Documentos roubados 

E os documentos que permaneceram por muito tempo escondidos, e, há dois anos, foram roubados do Irã por espiões israelenses, estão oferecendo uma nova visão da situação em que o Irã se encontra no seu programa com a aquisição de outros componentes cruciais necessários para a construção de uma arma nuclear.

Os registros dos documentos recém-divulgados comprovam a profundidade e a escala das pesquisas nucleares do Irã, e mostram que os cientistas daquele país estão intensificando os seus esforços para dominar as dificuldades técnicas. O resumo dos arquivos fornecidos ao jornal The Washington Post mostra ainda que as autoridades iranianas realizavam experiências complexas em uma rede de laboratórios secretos, procurando responder ao mesmo tempo a questões práticas como em que lugar do país eles poderiam perfurar um túnel para um futuro teste nuclear.

Os resultados desse trabalho ainda existem no Irã, permitindo a sua eventual retomada caso seus líderes decidam munir-se rapidamente de armas nucleares, afirmam especialistas em armas dos EUA e do Oriente Médio.

“Em 2003, o Irã tinha o projeto de uma arma nuclear e estava construindo coisas – realizando uma variedade de atividades”, disse David Albright, analista de armas nucleares que recebeu centenas de páginas dos documentos enquanto pesquisava para um livro. “Entretanto, estará realmente pronto para começar a produção de uma arma? Ainda não sabemos, mas logo talvez tenhamos de pensar a respeito”.

Após fim do acordo, Irã aumenta estoques 

Albright elaborou várias análises dos esboços dos documentos e forneceu cópias ao The Washington Post. Desde a retirada unilateral do governo Trump do acordo nuclear com o Irã, firmado em 2015, a república islâmica deixou de obedecer a muitas restrições e limites que aceitara na vigência do acordo internacional, inclusive o de 300 quilogramas dos seus estoques de urânio de escasso enriquecimento. 

A notícia dada na terça-feira pela Agência Internacional de Energia Atômica revelou que o Irã abandonou estas restrições, acumula mais de 1.020 quilos de urânio escassamente enriquecido e ativou novas centrífugas para produzir ainda mais combustível nuclear com maior rapidez. O urânio escassamente enriquecido é usado nas usinas nucleares para a produção de energia, mas, com um processamento adicional, pode ser convertido em urânio altamente enriquecido para bombas nucleares.

Com o aumento dos estoques, o Irã reduziu drasticamente o tempo que levará para produzir uma quantidade suficiente de urânio enriquecido para a produção da bomba – para menos de quatro meses, mostram cálculos independentes. Segundo o acordo de 2015, o Irã devia desconectar a maioria das suas centrífugas, exportar o grosso do seu urânio e desmantelar o reator nuclear. 

Autoridades americanas da época calcularam que o prazo máximo para o Irã seria de aproximadamente um ano. O Irã também concordou com amplas supervisões internacionais contra fraudes, e muitos analistas acreditaram que, desse modo, havia sido evitada uma crise nuclear pelo menos até 2030, quando muitos das disposições expirariam.

Isto tudo mudou quando o presidente Donald Trump, que criticou repetidamente o acordo como uma solução míope e um "desastre”, abandonou o acordo e impôs novas sanções ao Irã. Desde então, o país que anteriormente dispunha de um estoque modesto de cerca de 200 quilos de urânio enriquecido – muito abaixo do necessário para um único dispositivo nuclear – produziu uma grande quantidade, cada vez maior, de combustível que lhe poderia permitir a rápida fabricação de várias bombas, se assim decidisse.

Situação reversível 

Os defensores do acordo criticaram Trump por tentar ignorar um pacto que, quaisquer que sejam suas falhas, aparentemente funcionava, como os próprios assessores do presidente afirmaram nas audiências no Congresso. No entanto, muitos deles observaram nas entrevistas que, até o momento, as ações do Irã são reversíveis e que os líderes iranianos parecem estar mais interessados em enviar sinais do que em construir armas.

“Até o momento, os passos do Irã não foram irremediáveis – os iranianos têm sido relativamente equilibrados em sua resposta”, disse Robert Malley, presidente do Grupo de Crise Internacional e assessor de política no Oriente Médio nos governos Obama e Clinton. “Se neste momento você fosse o Irã, os instrumentos de que você dispõe no seu arsenal são a capacidade de expandir seu arsenal nuclear, tumultuar os mercados ou ameaçar países regionais e a presença americana neles. E se estes são os instrumentos de que o país dispõe, seriam os que ele pensaria em usar para responder à pressão dos EUA que veem como uma guerra econômica”.

Um dos arquitetos do acordo de 2015, o então secretário de Energia dos EUA Ernest Moniz, disse que, até o momento, os iranianos evitaram ações que assinalem claramente a intenção de fabricar armas, como expulsar os inspetores da IAEA ou retirar-se do Tratado de Não Proliferação internacional.

Para Entender

Os detalhes do acordo nuclear negociado em 2015 com o Irã

Teerã e o grupo P5+1 (EUA, Grã-Bretanha, França, Rússia, China mais Alemanha) colocaram fim ao impasse de anos sobre o programa nuclear iraniano

“Muito importante é o fato de que o regime de verificação continua confirmando que eles não estão no ‘modo de ruptura’”, disse Moniz, “o que implicaria sair totalmente”.

As novas revelações dos arquivos nucleares do Irã são um retrato do que seria “sair totalmente”. Desde pelo menos 2007, as agências de inteligência dos EUA estão cientes de que o Irã lançou um programa secreto chamado Projeto 110 – parte de uma iniciativa maior conhecida como plano AMAD –, no final dos anos 1990, com o objetivo de construir rapidamente cinco bombas nucleares.

As autoridades americanas acreditam que os líderes iranianos suspenderam o programa pouco depois da invasão americana do vizinho Iraque, em 2003. Mas os documentos nucleares, roubados de um armazém em Teerã por agentes israelenses em 2018, forneceram uma enorme quantidade de detalhes a respeito do projeto nuclear abandonado, mostrando que agências e laboratórios iranianos trabalharam exaustivamente  para dominar tecnologias e competências fundamentais em um prazo extremamente reduzido.

Agência da ONU analisa documentos 

Os documentos, que consistem de dezenas de milhares de páginas e discos de computador, foram compartilhados com a IAEA, os Estados Unidos e vários outros governos. Funcionários da IAEA confirmaram em entrevistas que continuam analisando os registros e que interpelaram funcionários iranianos a respeito de vários supostos programas de pesquisa e instalações de que anteriormente não se tinha notícia.

“Levamos muito a sério as informações, mas não ao pé da letra”, afirmou em uma entrevista em Washington Rafael Grossi, o diretor recém-nomeado da IAEA, no mês passado. Grossi referiu-se a “um esforço muito meticuloso e diligente” para verificar a credibilidade das informações.

Os documentos mostram que os pesquisadores nucleares trabalharam em conjunto para tentar resolver várias dificuldades técnicas complexas na construção de uma arma. Uma das sinopses de Albright mostra que o Irã realizou cerca de 200 testes no prazo de vários meses, que visavam na maior parte dominar problemas de física relativos à construção de uma série de cargas explosivas ao redor de um núcleo de metal urânio. Com um sincronismo preciso, as explosões provocam a implosão do núcleo de urânio, desencadeando uma reação nuclear em cadeia.

Segundo uma planilha preparada pelos supervisores do Projeto 110, foram realizados mensalmente em média 32 testes, uma cifra surpreendente que indica “mais testes do que se conhecia publicamente”, escreveram Albright e a coautora Sarah Burkhard em uma das análises.

Outros documentos mostram os iranianos pesquisando a metalurgia de urânio e projetos de ogivas, e também realizando simulações de explosões nucleares no computador, atacando sistematicamente cada um dos “gargalos principais” no difícil caminho para a produção de uma arma, disse Albright.

Uma quantidade separada de registros detalha os esforços iranianos para encontrar um local possível para construção a câmara subterrânea de testes. Sabe-se que o Irã analisou cinco locais em potencial, mas novos documentos sugerem que os cientistas do Irã escolheram uma provável localização – o Deserto Lut no sudeste do Irã, perto da fronteira afegã.

Segundo os documentos, as autoridades iranianas estavam reunindo dados geológicos e sobre o lençol freático e tiravam fotos de locais no deserto onde poderiam escavar um túnel para testar armas.

O Deserto Lut é um lugar infernal, um dos mais quentes do planeta. Os satélites que passam sobre ele registraram temperaturas na superfície da areia de quase 69º C, ou mais quentes do que um bife bem passado. O clima hostil significa que se pode confiar que o deserto está vazio – e portanto ideal para um local de testes nucleares. 

Documentos levantam dúvidas 

Nos documentos, não está claro se o Irã conseguiu preservar grande parte dos equipamentos usados nos testes e dos componentes depois que o programa foi engavetado. Pelo menos alguns dos materiais e instalações de quase 20 anos teriam de ser recriados ou reprojetados, mas Albright disse que outros aspectos do Projeto 110 quase certamente sobreviveram intactos e provavelmente se encontram em depósitos em alguma parte do país.

“Todo o equipamento valioso – câmaras explosivas, câmeras ultra velozes – deve ter sido preservado e provavelmente transportado para algum outro lugar”, disse Albright. “Algo que será preciso levar em conta é se o Irã estará preparado para novos testes. O assunto enriquece a discussão sobre a rapidez com que poderá usar urânio para fins militares e transformá-lo em uma arma nuclear”.

Obter respostas de Teerã a respeito é algo improvável. O Irã nunca admitiu suas iniciativas anteriores para a construção de uma bomba, e nos últimos meses impediu os inspetores da IAEA de visitar três sítios identificados nos documentos, segundo uma informação da agência desta semana. 

Otti Heinonen, ex-alto funcionário da IAEA que chefiou as inspeções das instalações do Irã no início dos anos 2000, disse que Teerã precisa abrir suas instalações e explicar totalmente o seu trabalho passado se quiser evitar as suspeitas de que possa estar fazendo algo mais do que aumentar seus estoques de urânio.

“Depois de 17 anos, a IAEA não foi capaz de concluir se o Irã cumpre seu acordo de salvaguardas”, disse Heinonen. “E esta não é uma boa notícia” . / Tradução de Anna Capovilla

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