Natacha Pisarenko/AP
Natacha Pisarenko/AP

Doenças de presidentes argentinos são 'assunto de Estado'

Para colunista político e médico, quadro médico dos chefes de Estado tem 'enormes implicâncias políticas'

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

03 de janeiro de 2012 | 20h25

BUENOS AIRES – "Apenas uma gripe". Com estas palavras, na última semana de 1974, a Casa Rosada – o palácio presidencial argentino – explicava o estado de saúde do então presidente Juan Domingo Perón. No entanto, na realidade, o caudilho de 78 anos tinha problemas mais graves do que aqueles relativos à coriza. Padecendo graves complicações cardíacas, morreu no dia 1 de julho.

 

Veja também:

blog ARIEL PALACIOS: Cristina Kirchner e seu câncer

 

O caso do ocultamento da doença de Perón foi apenas uma demonstração – de uma longa lista – de dificuldades dos governos de plantão em lidar com a comunicação sobre a saúde dos presidentes argentinos. Em 1993, outro peronista, o então presidente Carlos Menem, foi internado às pressas.

 

Nas primeiras horas o governo disse que não passava de uma gripe. Mas, na realidade ele estava sendo operado da carótida. Quando a verdade veio à tona os mercados ficaram tumultuados. O país estava em plena etapa de privatizações e o ministro da Economia, Domingo Cavallo, teve que aparecer na TV diversas vezes para acalmar os ânimos.

 

Em 2001 foi a vez do presidente Fernando De la Rúa, que teve uma obstrução na carótida em meio à grave crise econômica e à fuga de divisas que levaria ao colapso da economia argentina no final daquele ano. O então ministro da Saúde, Héctor Lombardo, médico pessoal de De la Rúa, complicou o cenário ao afirmar de forma ingênua que o presidente tinha "um pouquinho de arteriosclerose...".

 

Dente e duodeno

 

Segundo o jornalista argentino Luis Majul, o presidente Néstor Kirchner costumava beber uísque e fumava até meados dos anos 90. Mas, segundo o autor do livro "O Dono" - uma investigação sobre os negócios empresariais obscuros do kirchnerismo - a partir da operação de hemorroidas em 1996, Kirchner tomou mais cuidado com seu estilo de vida e passou a alimentar-se com frango fervido e purê de abóbora.

 

No entanto, apesar dos cuidados alimentícios, continuou tendo um ritmo acelerado na política. No mesmo dia em que foi operado, retomou seu trabalho de governador com intensas reuniões.

 

Em 2004, Kirchner estava sofrendo de uma intensa dor de dente. Sem consultar seu médico, ingeriu um potente analgésico e pegou um avião. O remédio teve o efeito colateral de lhe provocar uma grave hemorragia no duodeno. Segundo Majul, foi necessária uma transfusão equivalente à metade do sangue que tinha no corpo. O jornalista sustenta que o problema de Kirchner é que é era "paciente rebelde".

 

Nas primeiras horas, os porta-vozes da Casa Rosada afirmavam que a internação às pressas do presidente não passava de uma reação a um medicamento do tratamento dentário. Posteriormente, revelaram a verdade.

 

Em 2010, Kirchner foi operado duas vezes por obstruções da carótida. Mas, em ambas as ocasiões, o governo afirmou, nas primeiras horas, que havia sido internado para um mero "check-up". Uma semana depois da segunda operação, Kirchner havia retomado plena atividade política apesar das recomendações médicas. Em setembro, foi submetido à uma angioplastia. Menos de 48 horas depois participava de um comício ao lado da mulher. E um mês e meio depois, morreu.

 

Cristina e sua saúde

 

Em janeiro de 2009, a presidente Cristina passou mal e cancelou todas suas atividades durante cinco dias. Na época, o governo chegou a dizer que ela havia sofrido um desmaio por causa de uma "desidratação". Mas as explicações oficiais não convenceram - a presidente sempre carrega uma garrafinha de água mineral.

 

Nelson Castro, colunista político e médico que escreveu um livro sobre o sigilo que costuma aparecer em torno das doenças dos presidentes argentinos, disse na época que o comunicado oficial sobre o desmaio "não refletia toda a verdade".

 

Castro sustentou que a versão sobre o desmaio de Cristina Kirchner foi uma demonstração de que as doenças dos presidentes "são assunto de Estado que tem enormes implicâncias políticas". Ao longo de 2010, a presidente Cristina Kirchner passou mal em cinco ocasiões e teve que tomar dias de repouso, por ordens médicas.

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