Adriana Carranca/AE
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Dois anos após ofensiva, Gaza se mantém tensa

Escombros ainda se espalham por todas as partes, não há luz nas ruas e aviões e navios israelenses monitoram território controlado pelo Hamas

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2010 | 00h00

Dois anos após a ofensiva israelense, que deixou 1,4 mil palestinos mortos em 23 dias na Faixa de Gaza, os escombros ainda estão por toda a parte, não há luz nas ruas, a vida é monitorada à distância por aviões e navios militares e os confrontos voltaram a fazer parte da rotina.

Na última semana, campos de treinamentos do Hamas, túneis clandestinos na fronteira com o Egito e uma fábrica de armas foram bombardeados por aviões israelenses. Foram uma retaliação aos últimos 13 foguetes disparados contra Israel - 180 desde janeiro - por facções menores e mais radicais do que o Hamas, que controla o território, como o Exército do Islã. Mas o Hamas é responsabilizado por Israel por não controlar a situação.

Gabi Ashkenazi, comandante do Estado-Maior de Israel confirmou 60 mortes em mais de uma centena de embates com militantes em 2010. Em uma reunião do Comitê de Defesa e Relações Internacionais na Knesset, na terça-feira, Ashkenazi classificou a situação como "frágil, volátil e explosiva".

A população vive na iminência de uma nova guerra, sem ter conseguido se recuperar da outra. "Às vezes é impossível respirar. A poeira do concreto, o lixo sendo queimado na rua, o esgoto...", diz o farmacêutico Ayman Nimer. Ele entra pelas vielas estreitas e esburacadas do destruído cemitério Al-Sheikh Radwan, também bombardeado em 2008. "Quem eles esperavam matar no cemitério? Alá!?", diverte-se, com um típico humor palestino. Ayman aponta para as duas únicas oliveiras ainda em pé desde a guerra: "Olhe para essas árvores no meio dos escombros, tão empoeiradas, mas ainda respiram! São um sinal da resistência palestina."

Sob o nicab negro, tão empoeirado quanto as oliveiras, Om Saleh, de 60 anos, diz que os confrontos fazem parte da rotina nos arredores do Aeroporto Yasser Arafat, em ruínas. Há poucos dias, soldados do Hamas escondidos entre os escombros trocaram tiros com tropas israelenses e três tanques avançaram sobre a área onde passa os dias catando pedras, que vende com a ajuda dos dez filhos. Um carro de burro cheio vale por 20 shekels (cerca de R$ 9,50).

Ironicamente, um dos setores mais pulsantes da economia na Faixa de Gaza hoje vem do entulho deixado pelos bombardeios. Na principal via de acesso, a rua Al-Montar, crianças e jovens vasculham as ruínas do antigo distrito industrial em busca de ferro e pedras para vender às empresas de reciclagem, já que o bloqueio imposto por Israel proíbe a entrada de material de construção.

Com isso, a ajuda internacional ficou apenas no papel, o que inclui U$ 1 milhão do Brasil, com África do Sul e Índia, para a reconstrução do hospital do Crescente Vermelho. Somente em 17 de novembro a embaixada brasileira recebeu telegrama de Israel aprovando a iniciativa, mas o projeto e o material terão de passar pelo crivo do corpo militar. "O que temos é a palavra do governo israelense de que o hospital vai sair", diz um diplomata brasileiro em Tel-Aviv. Outros R$ 25 milhões, aprovados pelo Congresso Nacional em agosto de 2009, ainda aguardam os trâmites do governo israelense para chegar até Gaza.

A única central elétrica em Gaza, bombardeada em 2008, parou de funcionar. Os hospitais operam com geradores, mas é comum faltar combustível. E 70% da população não têm acesso a água potável, porque falta eletricidade ou os encanamentos estão destruídos. O número de autorizações concedidas para quem quer deixar Gaza representa apenas 1% do que era permitido há dez anos. A passagem para o Egito está aberta em teoria, mas visivelmente às moscas.

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