Dois anos após queda de ditador, pobres desconfiam de Morsi

Cenário: Tarek El-Tablawy e

SÃO CORRESPONDENTES NO CAIRO, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2013 | 02h01

Mariam Fam / Bloomberg News

Maher Mustafa chama seu bairro semidestruído, no Cairo, de "rua da tragédia". Quando está mal-humorado, ele o chama simplesmente "Egito". Condenado a ficar em casa pelo diabetes, o ex-professor de 50 anos passa os dias observando os vizinhos no distrito de Basateen de uma janela no terceiro andar. Alguns deles sofrem de doenças como a sua. A maioria, que ficara eufórica depois da queda de Hosni Mubarak, mergulhou no desespero com o presidente Mohamed Morsi. "Acho que teria preferido que as coisas não mudassem, no entanto, elas pioraram", disse Mustafa. "Morsi vendeu o país em troca dos votos do seu partido."

As reformas não contribuíram para melhorar a vida cotidiana em lugares como Basateen. Muitas pessoas ali se dizem indiferentes às disputas ideológicas que dominam as manchetes dos jornais e são poucos os que podem apontar alguma melhoria nos problemas anteriores ao levante, como corrupção ou mesmo os engarrafamentos de trânsito.

A era Morsi trouxe novos perigos. Uma enorme desvalorização da moeda do Egito ameaça agravar a inflação; ao mesmo tempo, o Fundo Monetário Internacional (FMI) poderá exigir medidas de austeridade que só afetarão os pobres, em troca de um empréstimo de US$ 4,8 bilhões.

"Embora Morsi tenha herdado um passado de má administração, seu maior erro foi não ser honesto com o povo egípcio na questão da situação econômica do país, da necessidade de sacrifícios, e a respeito do seu plano de governo", disse Yasser el-Shimy, analista da crise no Oriente Médio para o International Crisis Group, com sede em Bruxelas. Na opinião do analista, os problemas econômicos do país alimentaram a desilusão não apenas em relação aos islâmicos, mas ao próprio processo democrático.

As reservas em divisas estrangeiras do Egito continuam 60% inferiores aos níveis anteriores ao levante. A queda de 7% da libra egípcia, no mês passado, é a maior em uma década. O crescimento econômico dos 2 últimos anos foi o menor em 20 anos. O índice de ações que serve de referência ao mercado caiu cerca de 30% em termos de dólar desde o fim de 2010, embora tenha registrado um aumento no governo de Morsi. No mês passado, o presidente suspendeu os aumentos dos impostos previstos no seu plano econômico respaldado pelo FMI.

Ahmed Sobea, assessor de mídia da Irmandade Muçulmana e do Partido da Justiça, reconhece que não tem havido progresso, mas afirma que, em geral, é preciso atribuir a Morsi o mérito pelo fato de a situação não ter piorado.

"Não podemos dizer que o padrão de vida das pessoas tenha melhorado, mas tampouco se deteriorou, apesar da situação econômica e da crise cambial", afirmou Sobea em entrevista por telefone. Por outro lado, ainda é cedo para julgar Morsi, disse. "Como se pode responsabilizar alguém no início do seu mandato?"

Uma agenda política repleta de repetições intensificou as críticas de que Morsi não conduz o Egito para frente. Nos próximos meses, as eleições parlamentares serão realizadas de novo após os tribunais dissolverem a Câmara Baixa. Mubarak e seu ministro do Interior, condenados à prisão perpétua, serão novamente processados depois que os veredictos anteriores foram anulados. A proposta de empréstimo do FMI, por duas vezes suspensa pelo governo, foi apresentada outra vez.

Segundo Sobea, do partido da Irmandade, o governo está trabalhando para atrair recursos destinados a "importantes projetos que poderão transformar o Egito" e ele afirma que os constantes protestos desestabilizam o país sem oferecer soluções práticas.

Embora Morsi e o seu governo tenham sido o principal alvo das críticas, a oposição também luta para ampliar o apoio. A Constituição foi aprovada com facilidade no referendo do mês passado, embora quase 70% dos eleitores com direito a voto não tenham comparecido às urnas.

"Meus filhos procuram trabalho, mas estão bloqueando as ruas, exigindo que a revolução continue", disse Hussein el-Guindy, motorista aposentado em Manshiyat Nasr, uma enorme favela com edifícios feitos de barro que estão desmoronando. "Todos só estão interessados em sentar-se na cadeira do presidente." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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